░ BOLERO DOS DEDOS SUSPENSOS

preciso de uma palavra
como se precisasse de uma vida
não da palavra exata
mas da palavra volátil
que dê perspectiva ao vazio onde ainda
caberia um mundo
preciso tanto dessa palavra
não a palavra imaginária
retrato brilhante de seu criador
mas a palavra ouvida
uma palavra já pensada
estou certo de que já foi dita
lançada às marés do vento
uma palavra que gire em torno de mim
que volte e embora gasta
se quede ao menos
uma vez

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015

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░ DO EMPUXO

até segunda ordem tudo
flutua no vazio como um planeta
uma bexiga de gás
uma máquina do mundo
não me venham com sublimações
alucinações arquimédicas
fogueiras agnósticas
nós flutuamos
o corpo suspenso por fluidos
e no momento seguinte
já nos vejo
rodopiando no vento como sementes
sem saber onde vamos cair
e caímos
mas não sabemos bem por quê

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015

░ DIABO TRISTE

o diabo tem um olhar triste em que moram
pesados devaneios irmãos de todas as coisas
meu irmão mãos malhadas de passar a ferro
uma eternidade de palavras pernas magras
cruz de sua sede irrefletida os ombros curvos
sobre o pulmão o gesto fogueira do desejo
luzes foscas no cabelo as veias secas
como fontes em que o amor não entra mais
por mais que suplique não se tira o amor
não entra ar não sai não se tira mais seus ais
e sobre o corpo prometido a cal e argila
se imobiliza enfim uma alegria intransitiva
deus é seu hospital

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Metade da arte”, Editora Cosac Naify, São Paulo BR, 2003

░ AS FLORES DO MAL

Ninguém pode cortar por mim o mato do quintal. Ele invadiu o pomar, ameaça obstruir os caminhos. Digo-me que foi gerado pela força do meu silêncio ou da minha omissão. Mas de fato foi semeado pela mão que outrora o arrancou e involuntariamente semeou. Crescido forte e vigoroso, agora enche o trajeto de espanto, de amor-cego, de picão. O carrapicho, por exemplo, essa flor incisiva, nasce no centro de um círculo raiado e vai expandindo seus dedos, até entregar o bago louro de um trigo ruim. Visto de cima, ele tem a forma exata de uma íris. Pelo menos, é a forma que enxergo quando fecho os olhos. Ninguém pode cortar o mato, por mim. Nos dias de chuva, contemplo seu crescimento, sua tranquila absorção do influxo da vida, o percurso que o levará a sufocar a civilização criada em torno dele. Em dias como este, as mãos calejadas de sentido, me ajoelho e o ataco com as unhas. E no meio de ervas daninhas suo, me sujo, concentrado como um artesão, enfurecido como um filósofo, a extirpá-lo. Enquanto isso, suas sementes caem no chão limpo e a terra as acolhe, hospitaleira. Nuvens passam aos pedaços, quando me deito.

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “O roubo do silêncio”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2006