░ A CASA

Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroíam: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candeeiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava

 

Lisboa, 2018

 

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▪ Yvette K. Centeno
(Lisboa, n. 1940)
— Inédito

 

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░ Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas

Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas chegando e
partindo. O mar mais fundo, mais vasto. O papagaio na gaiola de
bambu falava várias línguas. O capitão no daguerreótipo tinha as
bochechas pintadas de vermelho. Ele trouxe uma rapariga semi-
nua dos trópicos que mantinham presa no sobrado mesmo
depois da morte dele. À noite ela emitia sons que poderiam ser
um cântico. O capitão falou de uma raça de homens sem boca
que subsistiam apenas com o cheiro das flores. O que fez com
que a sua mulher e a sua mãe dissessem uma oração pela salvação
de todas as almas não baptizadas. Uma vez, contudo, descobri-
mos o capitão a tirar a sua barba. Era falsa! Por baixo tinha outra
barba que parecia igualmente absurda.
Era o tempo dos passeios de viúvas atarefadas. As línguas mortas
do amor ainda se usavam, mas também muito silêncio, muita gri-
taria muda em altos berros.

 

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▪ Charles Simic
(Jugoslávia, n. 1938)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Mudado para português – José Alberto Oliveira

░ Árvore dos cílios

 

… e quando me resignei na ilha das pálpebras
em ser o hóspede das conchas e dos rastros
vi que o destino é um frasco
com águas e fagulhas
pronto a fazer do homem
mito ou fogo lendário,

eu ia carregado sobre os ramos
num bosque lácteo enfeitiçado
seu dia, consagrado à loucura, era
minha cidade, e a noite recinto íntimo.

 

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▪ Adonis
(Síria, n. 1930)
in ”Adonis [poemas]”, Selecção e tradução do árabe de Michel Sleiman, Companhia das Letras, SP Brasil, 2012