░ A lista dos cartões de Natal e Mr e Mrs R

Risco-os da lista?
Há vinte anos que não estamos juntos.

Claro que Mr R e eu em tempos pensámos
estar destinados um ao outro –

Ah, aquele momento excitante
junto ao lava-louça da cozinha, quando ele tirou

os óculos e me beijou violentamente.
Mas durou tudo menos de uma semana

e aquilo que recordo mais claramente
é o excelente conselho de Mrs R:

Mergulhe sempre os limões em água quente

antes de os espremer.

Talvez mais um ano.

 

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▪ Connie Bensley
(Inglaterra, n. 1929)
in “The Twelve Poems of Christmas”: Volume Dois”, selecção e introdução de Carol Ann Duffy, Editora Candlestick Press RRP, Inglaterra.

Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)
 



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Mr and Mrs R and the Christmas Card List

 

Shall I cross them off?
It’s twenty years since we last met.

Of course Mr R and I once thought
we were made for each other –

Ah, that heart-stopping moment
by the kitchen sink, when he took off

his spectacles and fiercely kissed me.
But all that lasted less than a week

and what I recall more vividly
is Mrs R’s good advice:

Always plunge your lemons in hot water

before you squeeze them.

One more year perhaps.

 

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▪ Connie Bensley
(United Kingdom, b. 1929)
From “The Twelve Poems of Christmas”: Volume Two, selected and introduced by Carol Ann Duffy, published by Candlestick Press RRP, United Kingdom.

 

░ BOLERO DOS DEDOS SUSPENSOS

preciso de uma palavra
como se precisasse de uma vida
não da palavra exata
mas da palavra volátil
que dê perspectiva ao vazio onde ainda
caberia um mundo
preciso tanto dessa palavra
não a palavra imaginária
retrato brilhante de seu criador
mas a palavra ouvida
uma palavra já pensada
estou certo de que já foi dita
lançada às marés do vento
uma palavra que gire em torno de mim
que volte e embora gasta
se quede ao menos
uma vez

 

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▪ Marcos Siscar
(Brasil – SP, n. 1964)
in “Manuel de flutuação para amadores”, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2015

— Divulgação

AS MÃOS NO FOGO
Maria Azenha

ISBN: 9788575317068
Selo: Escrituras
Autor: Maria Azenha
Formato: 14X21 cm
Páginas: 40

 Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda
São Paulo, Brasil

 *

DESCRIÇÃO —

“As Mãos no Fogo” é mais um exemplar da Coleção Ponte Velha, responsável por trazer ao Brasil obras selecionadas da literatura portuguesa contemporânea.

Este volume traz uma seleção de poemas de Maria Azenha, prestigiada autora portuguesa de vasta obra. Seu trabalho revela uma sagaz inventividade, presente nas construções inesperadas e alheias ao senso comum, que alude a um universo amplo e ao mesmo tempo simples. O leitor encontrará facilidade em se conectar aos seus poemas, tão ricos e versáteis em sua temática: um jogo entre a palavra e o sentido que vêm transmitir, de um modo divertido, inteligente e lírico.

*

 

░ ÉPOCA DE CRISE

Este edifício tem
os tijolos ocos,
sabe-se tudo
uns dos outros,
aprende-se a distinguir
as vozes e os coitos.
Uns aprendem a fingir
que são felizes,
outros, que são profundos.
Às vezes, algum beijo
dos andares de cima
perde-se nos apartamentos
de baixo,
e é preciso descer para o recuperar:
“O meu beijo, por favor,
se tiver a gentileza.”
“Guardei-lho em papel de jornal.”
Um edifício tem
a sua época de ouro,
os anos e o desgaste
roubam-lhe a espessura,
assemelham-no
à vida que passa.
A arquitectura perde peso
e ganha hábitos,
ganha decoro.
A hierarquia das paredes
dissolve-se,
o tecto, o chão, tudo
se torna côncavo,
é quando os jovens fogem,
dão a volta ao mundo.
Querem morar em edifícios
virgens,
querem por tecto o tecto
e por paredes as paredes,
não querem outro género
de espaço.
Este edifício não satisfaz
ninguém,
está na sua época de crise,
se é para ser demolido havia
de ser agora,
depois vai ser difícil.

 

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▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ ÉPOCA DE CRISIS

 

Este edificio tiene
los ladrillos huecos,
se llega a saber todo
de los otros,
se aprende a distinguir
las voces y los coitos.
Unos aprenden a fingir
que son felices,
otros que son profundos.
A veces algún beso
de los pisos altos
se pierde en los departamentos
inferiores,
hay que bajar a recogerlo:
“Mi beso, por favor,
si es tan amable”.
“Se lo guardé en papel periódico”.
Un edificio tiene
su época de oro,
los años y el desgaste
lo adelgazan,
le dan un parecido
con la vida que transcurre.
La arquitectura pierde peso
y gana la costumbre,
gana el decoro.
La jerarquía de las paredes
se disuelve,
el techo, el piso, todo
se hace cóncavo,
es cuando huyen los jóvenes,
le dan la vuelta al mundo.
Quieren vivir en edificios
vírgenes,
quieren por techo el techo
y por paredes las paredes,
no quieren otra índole
de espacio.
Este edificio no contenta
a nadie,
está en su época de crisis,
de derrumbarlo habría
que derrumbarlo ahora,
después va a ser difícil.

 

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▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto)
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011