░ Na paragem de autocarro

Na rotunda aí vêm
uma bicicleta,
um reboque,
um jipe.

Lá vem na rotunda
um Studebaker de 1950
(uma proposta interessante para o futuro).
Mais um camião Dodge dos anos 30
(restos da ciência moderna)
na rotunda.

Na rotunda aí vêm
um camião,
uma carroça,
uma motocicleta
e, último de todos,
a cair o meu autocarro prateado.

 

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▪ Shuntarō Tanikawa
(Japão, n. 1931)
in “Two Billion Light Years of Solitude”

Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) com base em traduções para inglês de William I. Elliott & Kazuo Kawamura.



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

░ At the Bus Stop

Around the circle here come
a bicycle,
a wrecker,
a jeep.

Around the circle here comes
a 1950 Studebaker
(an exciting proposal for the future).
Around the circle here comes
a thirties Dodge truck
(the offal of modern science).

Around the circle here come
a truck,
a cart,
a motorcycle,
and, last of all,
my shabby silver bus.

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▪ Shuntarō Tanikawa
(Japan, b. 1931)
in “Two Billion Light Years of Solitude”, translated by William I. Elliott and Kazuo Kawamura.

░ CÃES PRESOS

É possível que este cão preso ladre
às estrelas que o aturdem como se fossem sinais
e que esteja a uivar a quem o deixou de vigia
a ninguém, numa casa abandonada.

Os vizinhos queixam-se porque não conseguem dormir,
ouvir telefonia ou lavar os automóveis.

Enquanto isso eu imagino que ele tem caninos azuis
como o amor ou a morte, e imagino-o altivo
como alguns homens, como tantos cães.

Porque o seu ruido tem algo de delicada insensatez
e de agonia, e esse som acompanha-me e persegue-me.
Porque o seu latido impõe-se sobre as vozes
desafinadas e rançosas das pessoas
misturadas como no fundo de uma panela.

E porque é possível que eu esteja preso também,
mas sem convicção para ladrar e uivar
agora que sinto finalmente que me deixaram sozinho
vigiando uma luz quase desabitada.

 

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▪ Néstor Mux
(Argentina, n. 1945)
in “De Perros atados/ Delicada insensatez”
Mudado para português por – Pedro Mexia (Poeta, cronista e crítico literário português)

 

░ Receio aqueles

Receio aqueles que têm medo do vazio
receio Pascal mas não a teoria das probabilidades
não tenho medo das antiguidades Romanas pois
surgiram no espaço Euclidiano onde nós estamos
e acabam lá em cima no espaço de Piranesi
como se estivessem sob um sino medieval enorme
onde não falta espaço mas não há ninguém nem pessoas nem Deus
apenas instrumentos de tortura decrépitos dormindo
à luz fraca de um tempo que sobreviveu a si próprio
e ao entrarmos nesse lugar encontramos mais uma vez os dias ____________________________________[cinzentos sem fim
da nossa infância na cidade bombardeada silenciosa

 

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▪ Jaan Kaplinski
(Estónia, n. 1941)
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático).