░ O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman

O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman,
Dickinson, Frost. Bem-vindos vós cuja fama nunca passará da
família mais chegada, e talvez um ou dois amigos intímos reuni-
dos depois do jantar à volta de um jarrão de rude vinho tinto…
enquanto as crianças adormecem e se queixam do barulho que
fazes ao vasculhar os armários à procura dos teus poemas antigos,
com medo que a tua mulher os tenha deitado fora na limpeza da
última primavera.
Neva, diz alguém que espreitou a noite escura e que, depois, tam-
bém se volta para ti quando te preparas para ler, de uma forma
algo teatral e uma face que cora, o longo e tortuoso poema de
amor cuja estrofe final (que não sabes) falta sem remissão.

 

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▪ Charles Simic
(Jugoslávia, n. 1938)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Tradução – José Alberto Oliveira

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░ oratório

conheci o homem mais elegante do mundo
o homem que transformou a minha vida num oratório
é o único homem que não tem nome
asjoias dos seus ossos ouço-as através das paredes
reconheço a sua estatura pelo bater do mar em meu coração.

por vezes a sua voz amável entra em meus pulmões e eu não canto
ressoa numa delicada paloma de âmbar
e a sombra de fogo que vai deixando vai ampliando o céu.
sei então que me abeirei do relicário mais secreto da alma
onde entrego o sangue da sua generosidade a uma gaveta de prata.
sei ainda que aí é possível conceber as gemas de Deus.
quando é escuro e a noite se derrama
tocamo-nos com a devoção de Bach e adormecemos
numa silhueta única.
às vezes crio a ilusão de ele ser meu pai.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010



CASTELHANO

 

ORATORIO

 
conocí el hombre más elegante del mundo
el hombre que transformó mi vida en un oratorio
es el único hombre que no tiene nombre
las joyas de sus huesos oigo a través de las paredes
reconozco su estatura por el golpear del mar em mi corazón.

por veces su voz amable adentra en mis pulmones e yo no canto
resona en una delicada paloma de ámbar
y la sombra de fuego que va dejando va ampliando el cielo.
sé entonces que me aproximé del relicario más secreto de la alma
donde entrego la sangre de su generosidad a un cajón de plata.
sé aún que ahí es posible concebir las gemas de Diós.
cuando es oscuro y la noche se derrama
nos tocamos con la devoción de Bach y adormecemos
en una silueta unica.
a veces creo en la ilusión de ello ser mi padre.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010
Tradução – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil).
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

 

 

░ Ao sul

Ao sul de algum país está a minha casa
com discos de Bob Dylan e Purcell, e facturas,
e pudim de Yorkshire e livros a esperar-me,
e vozes que se cruzam pelos seus aposentos.
Mas o sangue tão frio do jasmim atravessa-me
quando a tarde tomba e escrevo, como agora,
ou pelo meus ausentes me calo no terraço.
Um cão grande acossado ladra no elevador.

 

 

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▪ María Victoria Atencia
(Málaga, n. 1931)
in “Paulina o El Libro de Las Aguas”, Antologia Poética, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Tradução – José Bento

░ Não sabemos nada

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou o nosso anseio,
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem devia esperar-nos, nem quem
nos cabia a nós esperar no meio
da gare fria. Não sabemos nada.
Seguimos tacteando e sem saber
se isto que parece ser alegria
não será apenas o sinal claro
de que outra vez voltámos a enganar-nos.
 

(de Roto Madrid, 2008)

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▪Amalia Bautista
(Espanha, n. 1962)
in “Poética y Poesía”, Fundación Juan March, Madrid, 2008

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _(Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

NADA SABEMOS

 

Nunca sabremos si los engañados
son los sentidos o los sentimientos,
si viaja el tren o viajan nuestras ganas,
si las ciudades cambian de lugar
o si todas las casas son la misma.
Nunca sabremos si quien nos espera
es quien debe esperarnos, ni tampoco
a quién tenemos que aguardar en medio
del frío de un andén. Nada sabemos.
Avanzamos a tientas y dudamos
si esto que se parece a la alegría
es sólo la señal definitiva
de que hemos vuelto a equivocarnos.

(de Roto Madrid, 2008)

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▪Amalia Bautista
(España, n. 1962)
in “Poética y Poesía”, Fundación Juan March, Madrid, 2008