░ Da capo

Pegue no coração gasto como se fosse um seixo
e atire-o para longe.

Pouco tempo depois não haverá nada.
Em pouco tempo a última onda cansar-se-á
nas ervas daninhas.

Tendo regressado a casa, corte cenouras, cebolas às rodelas e aipo.
Ao lume envolva em azeite antes de juntar
as lentilhas, água e ervas aromáticas.

As castanhas tostadas a seguir, um pouco de pimenta, o sal.
Para terminar, o queijo de cabra e salsa. Sirva-se.

Pode fazer isto, digo-lhe eu, é permitido.
Comece a história da sua vida novamente.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Da Capo

 

Take the used-up heart like a pebble
and throw it far out.

Soon there is nothing left.
Soon the last ripple exhausts itself
in the weeds.

Returning home, slice carrots, onions, celery.
Glaze them in oil before adding
the lentils, water, and herbs.

Then the roasted chestnuts, a little pepper, the salt.
Finish with goat cheese and parsley. Eat.

You may do this, I tell you, it is permitted.
Begin again the story of your life.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

 

░ Mulheres no Labor

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
porque não há mais ninguém a quem mentir

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
ao meio-dia na lavandaria
destruindo as suas próprias meias

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite:
Hans Brinker, ou The Silver Skates

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
como o primeiro manto estelar
pérolas a lua com nácar

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
enviando um jeito postal
o rosto de um bebé birrento
que grita Eu sou para o novo

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
recitando os nomes de sapatos

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
jorrando lágrimas injustificadas,
a condição que corre lateralmente
nunca chegando à boca,
a condição que tu não podes engolir

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
cantando seio afora o fardo do meu afecto
e depois o arroto

Mulheres que mentem sozinhas à meia-noite
obedecendo às leis da física
Mulheres que deixam que os seus sonhos se curvem no fim
Mulheres num mosteiro de flamingos

Mulheres que morrem sozinhas à meia-noite
contribuindo para o fim, para
o tempo perdido, para a chuva e para as moscas,
vendo o pássaro que viram preso no aeroporto
sobrevivendo pela fonte de água

Para além disso, tenta algum dia
Funciona

 

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▪ Mary Ruefle
(E.U.A, n. 1952)
in “Trances of the Blast”, Published by Wave Books, Seattle & New York, 2013

Mudado para português por – Sandra Santos, (Portugal, 1994). Estudante, escritora e tradutora. Licenciada em Línguas e Relações Internacionais (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), é actualmente mestranda em Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro). Participa em projectos culturais, artísticos e literários. Traduz do português e inglês para o espanhol e do inglês e espanhol para o português. As suas traduções estão publicadas em Portugal, Espanha e América Latina, nos blogues e revistas “Cuaderno Ático”, “Buenos Aires Poetry”, “escamandro”, “Círculo de Poesía”, “Poesia vim buscar-te”, “Otro Páramo”, “La raíz invertida”, “mallarmargens”, “Bitácora de vuelos”, “Emma Gunst”, “Enfermaria 6” e “El Coloquio de los Perros”.



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Women in Labor

 

Women who lie alone at midnight
because there is no one else to lie to

Women who lie alone at midnight
at noon in the laundromat
destroying their own socks

Women who lie alone at midnight:
Hans Brinker, or The Silver Skates

Women who lie alone at midnight
as the first furl of starlight
pearls the moon with nacre

Women who lie alone at midnight
sending a postcard bearing
the face of a bawling infant
who cries I am for the new

Women who lie alone at midnight
reciting the names of shoes

Women who lie alone at midnight
spurting unjustified tears,
the kind that run sideways
never reaching the mouth,
the kind you cannot swallow

Women who lie alone at midnight
singing breast away the burden of my tender
and afterwards burp

Women who lie alone at midnight
obeying the laws of physics
Women who let their dreams curl at the end
Women in a monastery of flamingos

Women who die alone at midnight
contributing to the end, to
lost time, to the rain and flies,
seeing the bird they saw trapped in the airport
surviving by the water fountain

What’s more, try it sometime
It works

 

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▪ Mary Ruefle
(E.U.A., b. 1952)
in “Trances of the Blast”, Published by Wave Books, Seattle & New York, 2013

 

░ MEU SONHO NO BERÇO

Escondido, adormece
meu Sonho em seu berço.
¿Será que me escuta
ao nomear a lua?

¿Saberá quem eu sou
ao escutar minha voz?

¡Que impaciência tenho!

Sigo o esperando
com um livro aberto.
Um caracol cobre
seu mundo primevo.
Breve encontrará
a saída. Espero…

 

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▪ Cristian David López
(Paraguai, n. 1987)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

MI SUEÑO EN CUNA

 

Escondido, duerme
mi Sueño en su cuna.
¿Será que me escucha
al nombrar la luna?

¿Sabrá quién soy yo
al escuchar mi voz?

¡Qué impaciencia tengo!

Lo sigo esperando
con un libro abierto.
Un caracol cubre
su mundo primero.
Pronto encontrará
la salida. Espero…

 

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▪ Cristian David López
(Paraguai, n. 1987)
Inédito