░ Lua cheia

nas palavras lavo os panos tristes
que ao fim de uma estação retêm agora
a sensação dos dias, o lume dos passos.

sinto que é um outro tempo,
um outro jeito de dobrar esquinas,
um outro modo de pisar a terra
– é tudo isto comprimido num pulso,
cingido dentro de veias como pequenas vozes
mudadas em canção ao acordar do ano.

vem, vem comigo, neste magnífico nascimento,
ouvir bater a espuma no cinzento das rochas,
e deixar passar as horas como quem flutua
à tona do tempo, inteiramente mergulhado no mundo
– vem dormir sob o luminoso manto da lua cheia.

hei-de dizer-te um dia
como se escolheu a cor do mar.

 

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “Um Mover de Mão”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

░ CANÇÃO DE UM INICIADO

subi a escadaria azul até ao céu
subi até onde desabrochavam as rosas
_____ até onde falavam as rosas

não ouvi nada____nada que se ouvisse
_____ouvi o silêncio

subi até onde cantavam as rosas
____até onde aguardavam os deuses
____escadaria azul lá no alto do céu

mas não ouvi nada___nada que se ouvisse
____ ouvi o silêncio ___o silêncio

 

[Huichol]

 

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “O DIA & A NOITE Não Podem Viver Juntos”
Poemas de índios americanos numa recreação de Vasco Gato, Edição Debout Sur l’Oeuf , Coimbra, 2016

░ I

Durante essa tua natação de fera oculta
há um papiro que se desdobra na minha boca
e nunca o futuro teve o sabor
de palavras tão sobejamente pronunciadas
família___rapaz___umbigo
palavras com que se poderia redigir
tão pouca coisa
se não fosse a reinvenção da tua chegada
inscrita no mundo como pedra preciosa
que não é pedra
antes um modo inalienável de reluzir
pelas braços fora

Sei que haverás de te deslocar
timidamente
por estas ruas e prédios que bocejam
dos nomes que lhes deram
e que contigo terão uma razão mais forte
para conspirarem na longa malha
inanimada
em que se decidem os bichos
a que chamamos homens
e que tão pobremente os têm
habitado – garanto-te –
à excepção de uma ou outra carne
mais obstinada em escapar
à bala comum

Para tudo isso terás tempo
ainda que rapidamente te dês conta
de que tudo é já tão tarde
eu próprio lamento o tempo que esperei
e que não terei para testemunhar
o incêndio dos teus olhos
o fruto magro que hás-de roer noite dentro
nalgum bairro de pormenor
quando o escasso amor que te deram
for alimento oportuno
de um amor mais desenvolto
– estranho comércio, sim –
o tempo que não terei para nos lançarmos
os dois ao mar
nalguma noite desesperada
partilhando o sal de tudo largar
esse gosto tão raro
tão sigilosamente próximo

Perdoa a falta de graça
o tom melancólico _____ a guerra
mas é que vivo numa época
que como muitas antes dela
repetiu os subsídios ao nojo
bateu o sangue em castelo
para se levar ao forno da ambição
deu uma sova às pequenas respirações
– sim, intersticiais, subtis, difíceis –
sem as quais um corpo é apenas
um estorvo à sua própria morte
percebes isso?
um estorvo à sua própria morte

Porque essas finuras de que te falo
são sem dúvida a única ousadia
frente à inevitável conflagração do espaço
– perdoa uma vez mais, eu reformulo –
tudo isto que ainda não vês mas verás
tudo isto que ainda não tocas mas tocarás
não durará mais do que a sua própria
experiência
e é essa a única lei
e é esse o único hino
país tão desabitado que festejado
cada desembarque como se trouxessem
o oceano

Se a eternidade fosse um espelho
o que mostraria?
Isto agora porque é aqui
que vive a luz e é está a paisagem
que nenhum deus pode apagar
senão à custa da sua fome
não receies por isso deus nenhum
nem eternidade nenhuma
a tua carne é o único tesouro
– sei-o enquanto nadas –
digno de ser embrulhado pela treva

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▪ Vasco Gato
(Lisboa, n. 1978)
in “Fera Oculta”, Douda Correria, Lisboa, 2014