░ Morte

Mais tarde, a cor deslumbrante da morte
ocuparia o limbo, as folhas destacar-se-iam
e cairiam deslizando no ar brumoso,
voltas semelhantes às dos aviões de papel
que lançam os alunos. Rabanadas de vento
de Oeste, empurrando velas de chuva,
fariam ranger como mastros
os ramos altos. As gaivotas planariam,
asas abertas, quase imóveis, sob o desfile
de nuvens baixo, cinzento e suave.
Todo o parque flagelado pela tempestade
tomaria matizes oceânicos. Vê-lo-íamos
caminhar só, mãos cruzadas atrás das costas,
ou então enfiadas nos bolsos,
ligeiramente arqueado, olhos no chão,
pelas alamedas molhadas. Qual marinheiro
desembarcado, pensava eu, tornado melancólico
pela recordação das vagas que levam,
depois abandonam, depois voltam a levar
o seu corpo: dobrado, desdobrado, batendo
como um coração ao ritmo da grande
pulsação das águas. Para sempre inerte.
Ó morte, velho capitão.

 

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▪ Olivier Rolin
(França, n. 1947)
in “Porto-Sudão”, Asa, Lisboa, 1995
Tradução – João Duarte Rodrigues

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