░ CÃES PRESOS

É possível que este cão preso ladre
às estrelas que o aturdem como se fossem sinais
e que esteja a uivar a quem o deixou de vigia
a ninguém, numa casa abandonada.

Os vizinhos queixam-se porque não conseguem dormir,
ouvir telefonia ou lavar os automóveis.

Enquanto isso eu imagino que ele tem caninos azuis
como o amor ou a morte, e imagino-o altivo
como alguns homens, como tantos cães.

Porque o seu ruido tem algo de delicada insensatez
e de agonia, e esse som acompanha-me e persegue-me.
Porque o seu latido impõe-se sobre as vozes
desafinadas e rançosas das pessoas
misturadas como no fundo de uma panela.

E porque é possível que eu esteja preso também,
mas sem convicção para ladrar e uivar
agora que sinto finalmente que me deixaram sozinho
vigiando uma luz quase desabitada.

 

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▪ Néstor Mux
(Argentina, n. 1945)
in “De Perros atados/ Delicada insensatez”
Mudado para português por – Pedro Mexia (Poeta, cronista e crítico literário português)