░ EM BLACKWATER POND

Em Blackwater Pond as águas revoltas acalmaram
depois de uma noite de chuva.
Mergulho as minhas mãos em forma de concha. Bebo
durante muito tempo. Sabe
a pedras, folhas, fogo. Cai fria
no interior do meu corpo, despertando os ossos. Ouço-os
bem dentro de mim, sussurrando
que coisa maravilhosa
aconteceu?

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

AT BLACKWATER POND

 

At. Blackwater Pond the tossed waters have settled
after a night of rain.
I dip my cupped hands. I drink
a long time. It tastes
like stone, leaves, fire. It falls cold
into my body, waking the bones. I hear them
deep inside me, whispering
oh what is that beautiful thing
that just happened?

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012

 
 

░ Dormir na floresta

Pensei que a terra
se lembrasse de mim, tão
carinhosamente me recebeu de novo, ajeitando
as saias escuras, com os bolsos
cheios de líquenes e sementes. Dormi
como nunca, uma pedra
no leito do rio, sem nada
entre mim e o fogo branco das estrelas
a não ser os meus pensamentos e estes flutuavam
leves como mariposas por entre os ramos
das árvores perfeitas. Ouvi
toda a noite os pequenos reinos a respirarem
à minha volta, os insectos e as aves
que trabalham na escuridão. Toda a noite
me levantei e caí, como se estivesse dentro de água, a lutar
com uma fatalidade luminosa. De manhã
tornara-me em alguma coisa melhor
umas doze vezes pelo menos.

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012
Tradução – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



Original version / Versão original

 

SLEEPING IN THE FOREST

 

I thought the earth
remembered me, she
took me back so tenderly, arranging
her dark skirts, her pockets
full of lichens and seeds. I slept
as never before, a stone
on the riverbed, nothing
between me and the white fire of the stars
but my thoughts, and they floated
light as moths among the branches
of the perfect trees. All night
I heard the small kingdoms breathing
around me, the insects, and the birds
who do their work in the darkness. All night
I rose and fell, as if in water, grappling
with a luminous doom. By morning
I had vanished at least a dozen times
into something better.

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012

 

░ O homem que tem muitas respostas

O homem que tem muitas respostas
é muitas vezes encontrado
nos teatros da informação
a oferecer, amavelmente,
as suas muito profundas descobertas.
Enquanto que o homem que só tem perguntas,
para se confortar a si mesmo, faz música.

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012
Mudado para português por – Luís Filipe Parrado (Poeta, tradutor e professor)

 



INGLÊS

 

The man who has many answers

 

The man who has many answers
is often found
in the theaters of information
where he offers, graciously,
his deep findings.

While the man who has only questions,
to comfort himself, makes music.

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012

░ Algumas questões que podemos colocar

A alma é sólida, como o ferro?
Ou delicada e frágil, como
as asas de uma mariposa no bico do mocho?
Quem tem alma e quem não tem?
Continuo a olhar em meu redor.
A face do alce é tão triste
como a de Jesus.
O cisne abre com lentidão as asas brancas.
No outono, o urso negro leva folhas para a escuridão.
Uma pergunta leva a outra.
Tem forma? Como um icebergue?
Como o olho de um colibri?
Tem um só pulmão, como a serpente e a vieira?
Por que razão tenho eu alma e o papa-formigas
que adora as crias não tem?
Por que razão tenho eu e o camelo não?
Pensando bem, e os áceres?
E os lírios azuis?
As pedras pequenas, sozinhas ao luar?
As rosas, limões e as suas folhas brilhantes?
E a erva?

 

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▪ Mary Oliver
(EUA, n. 1935)
in “A thousand mornings”, Penguin, Nova York, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, tradutor e  matemático)