░ Destino

Não bordo por destino
nem me dobro

Não cedo à mão da vida
nem me encubro

Não cumpro_ não aceito
nem me calo

Não amo o que é imposto
nem me afundo.

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom quixote, Lisboa, 2009

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░ Os teus olhos

Direi verde
do verde dos teus olhos

um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
_________ ou vinco

voragem mais crespada
ou precipício

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009

░ Mulheres

Há nas mulheres
o sono duma ausência
como uma faca aberta
sobre os ombros

à qual a carne adere
impaciente
cicatrizando já durante
o sonho

E há também
o estar impaciente
calarmos impacientes
todo o corpo

Sorrir não devagar
claramente
lugares inventados sobre
os olhos

E há ainda em nós
o estar presente
diariamente calmas
e seguras

mulheres demasiado
serenamente
nas casas   nas camas
e nas ruas

E como toda esta herança
não chegasse
como se ainda quiséssemos aumentá-la
fechamos os braços de cansaço
como se da vida
chegasse o inventá-la

E se do sono
nos vem o esquecimento
quantas insónias
cansamos por de dentro

 

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▪ Maria Teresa Horta
(Lisboa, n. 1937)
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009