░ O esquilo malabarista de cauda

O esquilo malabarista de cauda
a dar a dar
acasala-se como pode
com as fêmeas de serviço
que lhe oferecem bolotas de servidão

na concavidade das bibliotecas

altanado e bem falante
é mestre na arte de tosquiar.

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Pequeno bestiário académico”, 2ª edição, Amazon, 2018

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░ Em Roma, onde há artérias de flores e mármores

Em Roma, onde há artérias de flores e mármores que servem
de espelho às concubinas, ela caminha entre ecos de beleza
em busca do futuro. Abandonada à melancolia das ruinas
ao estremecimento do tempo que passa.

Em Roma, onde a lua se cobre de sangue e o ombro macio do
papel se transforma em amante antigo, ela aprende a durar.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Errâncias”, Escritor, Lisboa, 1992

░ O caminho

O caminho a percorrer no teu espaço é talvez uma maneira
de resistir à desumanidade que nos rodeia, a tudo o que é opaco
e doloroso.
Falo-te, invento-te na noite perfumada e tudo isto não acontece
por acaso.
Pressinto-te por detrás do silêncio. E existo.
Mas de que negras raízes é feita a árvore do teu corpo?

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Transparências”, & etc, Lisboa, 1985

░ A pedra

A pedra
conserva o perfume do homem
seu gesto de cristalização cíclica
em busca de uma verdade solar.

A pedra
respira a paixão do excesso
pássaros e curvas de plenitude feliz
instrumento do oráculo.

A pedra
sangra de lucidez aflita
restitui o cântico
inventa o poema
ávido silêncio mineral
onde gritam gestos pacientes.

A pedra
é andrógina figura
atravessada de veias e rumores
ondulação das formas mais puras
entre rigidez e harmonia

sexo de mármore aberto
aos lábios do vento.

 
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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Olhar fractal“, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1996