░ o homem que amava demais

conheci um homem que entrava pelas janelas
falava de cegueira às borboletas
e nadava em silêncio com os peixes

uma ocasião cravou no peito um poema
———————————————-disse:

————————————-sou um poço

 

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▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2012

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░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

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▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998

░ As nuvens apressam-se

Terça-feira. As nuvens apressam-se.
A minha mãe teria agora cem anos.
O meu pai um pouco mais velho.
Os avós o dobro das idades.
Esses não os conheci. Os muros da terra
já os devem ter engolido.
O tempo sussurra os seus nomes debaixo das árvores.

Serenamente ouço o rumor das aves
à entrada do paraíso.

Somos apanhados em todos os lugares.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora



VERSIONE ITALIANO

░ Le nuvole si affrettano

 

Martedì. Le nuvole si affrettano.
Mia madre avrebbe ora cent’anni.
Mio padre un po’ più vecchio.
I nonni il doppio dell’età.
Non li ho conosciuti. I muri della terra
li avranno già ingoiati.
Il tempo sussurra i loro nomi sotto gli alberi.

Serenamente sento il mormorio degli uccelli
all’ingresso del paradiso.

Siamo presi in tutti i luoghi.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

Mudado para italiano por – Daniela Di Pasquale, tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.