░ LO ZELO DELLE TENEBRE

Lui amava la donna.
Lei si impiccò nella casa della spiaggia.
La trovò da sola senza i piedi sul suolo.

La vide
Dopo
vicino alla finestra
immergersi nel silenzio della sala.

Starà
provando i rami teneri
della Primavera?
O spia dentro gli specchi
di Marzo?

Difficile immaginare questi alberi
di tenebre
senza aria alcuna!

Nei miei sogni lei dice sempre addio
cavalcando verso il mare

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.



VERSÃO ORIGINAL

 

░ O ZELO DAS TREVAS

 

Ele amava a mulher.
Ela enforcou-se na casa de praia.
Encontrou-a sozinha sem os pés no solo.

Viu-a
Depois
junto à janela
mergulhar no silêncio da sala.

Será
que prova ramos tenros
da Primavera?
Ou espia para dentro dos espelhos
de Março?

Difícil imaginar estas árvores
de trevas
sem nenhum ar!

Nos meus sonhos ela está sempre a dizer adeus
cavalgando para o mar

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “A Casa de Ler no Escuro”, Editora Urutau, São Paulo – Brasil, 2016

 
 
 

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░ Nada escapa ao seu movimento eterno

Num sonho somos borboletas nocturnas
os edifícios são exatamente como nós
dentro permanecem crianças sentadas em cadeiras
gigantes,
crianças que não podem falar

convocam toda a gente quando a luz está a lutar
quando o vidro se dissolve
no sangue
articulando a escuridão do mar
com a mão da flor
com o desenho do fogo

o poema pestaneja na mesa de papel do sono
na sua inefável transparência
os seus olhos são bons para o deserto
alongam as palavras em camadas de ar
escondem-se no fundo da gaveta do inverno

dizem do vento o esquecimento a romã da tarde
a lareira é um dos seus múltiplos reflexos
e a mulher compõe poemas perto do fogo
com a maré cheia

as crianças correm por corredores de água
incitam o rebentar das folhas no cenário da boca
atravessam as janelas   a sala   o quarto
nada escapa ao seu movimento eterno

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito
 
 

░ Há quem diga

A morte tem luvas brancas tão belas.
Todos os que amo já têm as suas.
E o temor das pessoas é como estrelas
sobre o seu arco de triunfo.

Seus dedos longos de bruma.
Revoltos pela luz do luar.
E pelo temor das pessoas.

Há quem diga que ela é um alforge da lua.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

 



Cambiado a español

 

░ Hay quien dice

 

La muerte tiene hermosos guantes blancos.
Tienen los suyos todos los que amo.
Y el temor de la gente, como estrellas
en su arco de triunfo.

Dedos largos de bruma.
Revueltos por la luz de la luna.
Y por el temor de las personas.

Hay quien dice que es alforja de la luna.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
— Inédito

                                                                                                     *

Cambiado a español por — José Ángel Cilleruelo — Poeta, narrador, traductor y crítico.

 

░ Quero cobrir de fumo a tua cabeça

Dia!
Quero cobrir de fumo a tua cabeça!
A minha divisa é a Poesia!

O excedente que desapareça…
O meu coração enche-se de nervos.
Um bode deu-me as boas tardes.
Na rua ninguém pode acalmar-me.
O crepúsculo, pálido em chamas, sussurra!
Hoje é o dia das lesmas !
As minhas mãos exibem nuvens exóticas.
Venham comigo.
Estamos todos no chão.
Sem nós não há nada. Hoje é um dia
Silencioso e malvado:

O Dia dos namorados,
O Dia dos reis
O Dia do pai
O Dia da mãe
O Dia dos mortos
O Dia da árvore

O Dia das mentiras
O Dia das bruxas
O Dia do Amigo
O Dia do rim
O Dia da poesia

O Dia da água
O Dia da tuberculose
O Dia da Terra
O Dia de natal
.
O Dia do Trabalhador
O Dia da Hipertensão arterial
O Dia dos Museus
O Dia do mar
O Dia do não fumador
O Dia das crianças raptadas

O Dia europeu dos vizinhos
O Dia dos oceanos
O Dia dos refugiados
O Dia da Juventude
O Dia do Desaparecido
O Dia para a Preservação da Camada de Ozono
O Dia contra o Tráfico de Drogas
O Dia dos Povos Indígenas

O Dia do Turismo
O Dia do Coração saudável
O Dia das Pessoas Idosas

O Dia do Animal
O Dia da Diabetes
O Dia da Televisão

O Dia da Sida
O Dia para a Abolição da Escravatura
O Dia do Voluntariado
O Dia da Aviação Civil

O Dia contra a Corrupção
O Dia contra a utilização de crianças-soldado
O Dia contra as vítimas do terrorismo
O Dia da Meteorologia
O Dia do Livro

O Dia Internacional das Montanhas
O Dia para a Erradicação da Pobreza
O Dia do corpo de Deus

O Dia da Dança
O dia do Sono
O Dia das Aves
O Dia do Sol

O Dia Internacional da Criança
O Dia da Internet segura
O Dia Mundial da População

O Dia da Violência contra a Mulher
O Dia da Mulher

E eu não escreverei quantos séculos passarão
para eliminar estas lesmas
com os seus generais de comédia!

 
_
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora