░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

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▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998

░ Sobre as vossas mãos a memória

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O poema veio do pó.
Ele estava em pé
e era devorado por corvos.
Dele desci por uma cruz
e encontrei um ninho de vespas.
Sobre o meu coração depuseram cinzas
substituindo as estrelas por lanternas vermelhas.
E enquanto as crianças eram flageladas
pelo silêncio de Job
o meu sofrimento não tinha fronteiras…

Então as lágrimas de minha mãe correram
loucamente
como larvas acesas pela terra inteira,
diante das minhas faltas…
E iam e vinham galgando muros e montanhas
em grandes lençóis de poeira…
Das suas mãos jorravam relâmpagos
cuspindo fogo das entranhas…

Então gritei:
Mãe…Mãe…
Eu sou uma daquelas crianças…
E eles mataram-me…
Transformaram um rio de sangue num bosque de cadáveres…
O ouro tombou cego dentro da primavera
E as flores químicas da guerra sufocaram-me…

Meu pai pegava-me pela mão
ao colo
através do sofrimento do coração da erva e da lama…

E eu pegava em outras crianças
nos confins das trevas
lembrando-me de todos os seus nomes
fazendo-as descer amorosamente pelos meus ombros…

Ouvia depois
a voz tremenda dos ausentes nas sementes da memória…

Em mil campos se espalham.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

Fotografia | Fonte: Suplemento de Pernambuco

░ Acordo todos os dias à mesma hora

Acordo todos os dias à mesma hora.
Hoje acordei condecorada pela minha cabeleireira
que trabalha horas a fio para a autoridade tributária.
Preferia, se tivesse que ter preferências, ter sido condecorada
pelas mãos da lúcia canhoto ou ganhar um euro na raspadinha.
O pior é que me obrigaram a colocar uma fita ao pescoço.
Decidi-me então escrever ”as laranjas mecânicas do sr. barroso”.
Mas a guerra lixou tudo.
Doem-me os joelhos. Não me posso dobrar.
Se não fosse a minha tia e os bandidos que violaram o sistema de
—————————————————————————-[justiça
já tinha acabado o volume inteiro.
Assim continuo a derreter velas à noite,
a escrever cartas trocadas do marido para o amante.
Ninguém sabe, mas sou a favor da distribuição de poemas ao acaso
em vez de cigarros eletrónicos na boca uns-atrás-dos-outros.
Sim, porque há fumos e fumos e outras coisas notáveis
umas mais legais que outras. Noutro dia vi uma pomba na rua
a escolher do chão o que um cão tinha feito.
Quem sabe se tinha tomado brandy!
Chega a ser tocante. Às vezes uma maldição.
De duas em duas horas assisto ao sorteio de salários
com ou sem reposição de nomes.
Tenho a impressão que aterrei num planeta em saldo.
De resto para que serve ser cão? Tornei-me uma farda.
Conheço um gato licenciado que ainda não foi colocado.
Não sou o Lear.
Estou sentada num caixote de lixo com os olhos vendados.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “Eufeme” nº. 3 – Magazine de Poesia, Porto, 2017