░ EU PERCEBO, CLARO, QUE NÃO ME COMPREENDAS

Eu percebo, claro, que não me compreendas. Há um momento em que ficamos completamente sós com os nossos fantasmas. E não há, disso, amor algum que nos salve. Constatamos, em silêncio, que tudo desabou.

Mas o que eu não queria, de todo, era fazer literatura desta casa. Devo-lhe demasiadas memórias, pensei muitas vezes na sua provável ruína. Saber que é agora «minha» representa um acréscimo de dor e de responsabilidade.

Tem-me ajudado, reconheço, trazer aqui amigos, e partilhar com eles o impartilhável. Pois é-lhes difícil adivinhar quantas recordações estão associadas a uma fotografia aparentemente banal, a uma jarra coberta de pó ou ao velho gira-discos do meu pai.

 


▪ Manuel de Freitas
(Santarém, n. 1972)
in “Ah, vous dirai-je, Maman”, Edição do Autor, Lisboa, 2015

░ III (Grande Hotel de Paris)

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

 

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▪ Manuel de Freitas
(Santarém, n. 1972)
in “A Flor dos Terramotos”, Edições Averno, Lisboa, 2005

░ Sombras

Iluminar o mundo – com palavras.
velas, algum vinho.
Dito assim, quase parece simples.

Mas chovia muito e resguardou-se
cada um na sua tão pequena chama
ou numa cómoda e fria indiferença.

Talvez fosse de esperar. As velas,
porém, continuaram a arder.
Enquanto cinco rostos se reflectiam na parede

e a poesia era, de novo, a única luz.

 
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▪ Manuel de Freitas
(Santarém, n. 1972)
in “Ubi Sunt”, Edições Averno, Lisboa, 2014