░ PARA QUÊ POETAS EM TEMPOS DE INDIGÊNCIA?

Levantar a gola do casaco,
esconder os punhos da camisa já puídos
e defender, com os dentes cerrados, as palavras:
mas quem aguenta mais este murmúrio vão,
que não colhe mais as flores do mal nem a luz
radiosa na própria miséria?
Resistir, como sempre fizeram os humilhados.
Decorar palavras antigas.
Repeti-las, para que não sejam esquecidas,
aos vindouros.

 

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▪ Luís Filipe Castro Mendes
(Idanha-a-Nova, n. 1950)
in “A Misericórdia dos Mercados”, Assírio & Alvim, 2014