░ Eu sou o rio dos mortos

Eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro.

Eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos.

Eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago.

Eu sou o rio dos mortos
minha carne é das nuvens.
Se fujo só dou em mim.

Eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão.

Eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram.

Eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
ninguém me ultrapassa sem desvão.

 

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▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Cantos de estima”, Selo de Estimas e Grama, Editora Douda Correria, Lisboa, 2015

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░ O futuro? Tem orelhas

O futuro? Tem orelhas,
mas é surdo. E é manco.
Se arrasta, sem espanto
mais alheio do que lúcido
com o nosso despreparo.

Se fosse um deus amava o humano, mas como não existe
o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
de cronogramas, nem de antecipações.

Tem firmeza de flor. E é
invisível, reconhecido
por seus efeitos de brisa
furacão. Nunca adiado.

Não tem nada a ensinar
no entanto é um mestre
dizem os esgrimistas
os observadores de saltos
os gatos também
aprendem certos truques com ele.

E se ama os despreparados
lhe sabem tanto os que fazem
quanto os que esperam.
Os otimistas valem mais
valem quanto?
Cem bifurcações,
sucessivas gerações
de bem-aventurados
que topam em pedras
cicatrizam e correm
bem alimentados
com fome de mais
alimento.

São seus sinais
os imprevistos, os cavalos
os pontos cardeais
os cinco sentidos
e os sete buracos da cabeça.

 

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▪ Júlia de Carvalho Hansen
(São Paulo BR, n. 1984)
in “Seiva veneno ou fruto”, Editora Chão da Feira, Brasil, 2016