░ Som

Nem sequer é música isto que ouvimos,
é um arrastar de pés, de pedras, de pás que
escavam uma casa de cinzas,
são degraus que descemos,
martelando surdamente,
esmagando pétalas, insectos, cristais,
é um trabalho de facas no trono das acácias,
dos cedros,
facas que atravessaram os pulsos e o coração,
é um rangido de portas,
janelas que batem,
o vento nos ramos,
nas folhas quebradas do Outono,
não, nem sequer é música isto que ouvimos.

 

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▪ José Agostinho Baptista
(Funchal, n. 1948)
in “Anjos Caídos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003

░ Agora

Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas,
nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei porque veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus antigos.

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▪ José Agostinho Baptista
(Madeira, n. 1948)
in “Biografia”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000