░ O silêncio dói como pedra na língua

O silêncio dói como pedra na língua.
A vida por vezes não tem esperanças nem sentido,
tudo parece em paz e no entanto o amor
tem sempre uma mais fria recompensa.
Desde a primeira flor, pouco ainda mudou
essa face da noite com a face do Homem.
O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta
e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.
O silêncio é de passos que atormentam a noite
e que ao fundo do fogo vão buscar a luz
para fazer arder as horas até ao orvalho
onde a manhã se ri com os dentes de água.
Às vezes vagueia pelo pomar da noite
uma égua perdida numa nesga de luz,
é a dor que pergunta e procura uma casa
junto à erva do peito, sob os olhos calados.

 

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▪ Joaquim Pessoa
(Barreiro, n. 1948)
in “O livro da noite”, Moraes Editores, Lisboa, 1982

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