░ DEUS AUTÓMATO

Se aos deuses nada há a acrescentar
 pouco lhes há também a retirar
 Ruy Belo

porém refuto o pneuma,
inspiro só expiração.
Recuso a graça, o sopro,
o demiurgo de sentinela.
Excluo a íris absoluta –
omnipotência omnipresente –
a inspiração, os anjos,
o espírito santo tocador.
Recuso o uno criador,
eterno fluxo de imagens,
signos, símbolos e sinais.

Porém refuto o pneuma,
procriação do vate doentio.
Recuso a graça, o sopro,
o demiurgo de sentinela.
Esconjuro o logro estupendo
do que dizem milagroso.
Exorcizo o malogro,
o uno relativo enternecedor.
Abjuro o insípido incipiente
da intenção intencional intensa,
a metafísica envergonhada
de ser carne e transformação.
Abdico das salvas dos que
se enclausuram no medo.
Não me toca a mão do insípido,
inolente e inodoro somente conceito:
deus.

Entendo o autocrata indesejado.
Porém no entanto contudo todavia,
esse todo não me anima
qualquer projecto insuperável.

E num vácuo instalo a ausência
do que em mim expira.

 

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▪ Henrique Manuel Bento Fialho
(Rio Maior, n. 1974)
in “Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe”, Edição do Autor, Rio Maior, 2000