░ no lado maior do que não há

ir
no redondo da vela mais branca

navegar
o silêncio dos clarões

passar
por nenhuma ponte

morrer
no lado maior do que não há

 

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▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014

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░ INCERTO

que hora foi essa
que saltou do ventre
dos relógios
como um garrote
de cinzas?

devo ainda
esperar por mim,
enlouquecer no regaço
das catedrais como
pingo de sol num
peito de viúva?

eu quero dançar
sobre as lâminas rombas
deste tempo
quero cortar-me até ao osso
porque só a dor
é capaz de nos revelar
a grande mentira
que há por detrás
de todas as coisas

tranquilo, assim sereno
de saber que nunca
a posterioridade se
interessará por mim

 

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▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, Poesia Reunida, Editora Medita, Brasil, 2014

░ Nostalgia

o tempo
descansa dos seus crimes
preso à sombra fiel
desta memória
o amor
como um obediente
braço quebrado
reclama
o derramado vermelho
dum céu vencido
e os gritos
outrora assassinados
são agora palavras recusadas
suspensas nos lábios de pedra
desta aldeia tão remota
como tu

 

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▪ Gil T. Sousa
(Vila Nova de Gaia, n. 1957)
in “água forte”, A Cadeira de Van Gogh – Associação Cultural, Editora Medita (Brasil), 2014