░ GOLPE

Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Existência”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017

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░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

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▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005