░ A escrita e a eternidade

Contra o poder desagregador do corpo
da escrita,
não há realidade, por mais extrema,
capaz de superar
a certeza moral da sua
eternidade. As mãos da mulher permanecem, hoje,
________apoiadas na
profunda névoa da
almofada.
No leito, soerguido, ela tenta ainda,
ainda,
uma vez mais, uma vez mais,
deixar-nos uma
mensagem.
Mas a caneta pende, frouxa, dos lírios
dos dedos
como se fora um leve descuido de vento aflorando
das mangas cumpridas
da camisa de noite.
Não sei se, de tão nus, estes
não conseguem mais pensar em fazer ouvir ideias
simples,
tais como as de um poema
poder ser (ou não)
o que o anula no silêncio do pó: ou se todos os seus
não terão contido «mais ciência
que virtude»: e não porque a profanação (e imperfeição)
da arte
lhes não tenha atravessado a discrição e gentileza,
mas porque os traumas,
as proibições,
as doenças,
a loucura,
a loucura, a loucura,
Sylvia,
foi, decerto, o que neles superou
o instante
em que o animal
se afastou – entendendo sermos
sob a terra penosamente
móveis
e mortais.

 

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▪ Eduarda Chiote
(Bragança, n. 1930)
in ‘Órgãos Epistolares’, Edições Afrontamento, Porto, 2010

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░ Onde o rigor atinge o seu limite

Estou perto de uma encruzilhada.
Há, nela, um
cadáver de versos e uma ave.
Couberam-me por sorte
uma vez que eu própria os assassinei
e esse crime voou pelas palavras do meu sonho
varrendo o ar
alucinado.
Ecoam ainda, os seus gritos, pelos
caminhos.
Ouvem-se as suas vozes dizer: – Esquece o teu coração
___pueril.
Pertences à noite e és suspeito
de loucura maior que a dos teus pesadelos – a de cravares
um punhal no remorso que te devora.
És um corvo.
Alimentas o terror e a passividade
da cova onde te permito enterrar-me viva,
para que a minha carne
possa ser consumida
pelo teu mais infame
poema.

 

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▪ Eduarda Chiote
(Bragança, n. 1930)
in “Orgãos Epistolares”, Edições Afrontamento, Porto, 2010