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A malandrice chamou-me a atenção aos cinco anos,
quando escrevi as primeiras linhas.
«a minha mãe é loira de olhos azuis e eu gosto muito dela»
Comia-se marmelada com pão, não se varriam migalhas
que o tempo urgia em galgar.
De joelhos no chão esborrachavam-se formigas
e depois tinha-se pena e ia-se para casa em silêncio
punha-se um letreiro na porta a dizer «compram-se idosos»
mesmo que não fosse verdade
experimentavam-se línguas em bocas e andava-se à roda
literalmente
e os arrepios eram os primeiros coitos
e as interrupções eram miúdas
mijava-se em poesia, mesmo de cócoras
a solidão de domingo era água das pedras
e nem havia telefone para lhe tocar

 

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▪ Cláudia R. Sampaio
(Portugal, n. 1981)
in “A primeira urina da manhã”, Douda Correria, Lisboa, 2015

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