░ Aurora Consurgens

veja bem, como poderemos
desafogar o mercúrio, Antonio
se tudo o que temos
são apenas trapos fervidos?
e este vinho
fermentado em plena sexta-feira
poderá por acaso
extrair de nossa loucura
uma lucidez estóica?
os ciganos se vão, Antonio…
as caravanas
o amargo da nectarina velha
até mesmo aquele velho romance
que relemos tantas vezes
por não termos mais que um livro
e um vidro de azeitonas.

o calendário na porta
uma mandrágora seca
para espantar os espíritos
e impedir que as crianças
morram todas
de uma disenteria industrial.
aqui neva,
mas nunca tivemos gelo
ou sequer um recinto
com os mantimentos que duram.
você fuma demais
e bebe exageradamente:
deve ser por isso que neva
mas nunca tivemos gelo.

foi algum conquistador
que esqueceu seu canhão
no deserto em que moramos
e agora as crianças brincam
enfurecendo o espírito ruivo
de um bucaneiro qualquer.
veja como pulam sobre a boca
e testam o eco
sem medo de serem mutiladas.
quando eu crescer serei como elas
só que mais velha
e sem canhão.
serei mais negra também
guardando em cada bolso
uma esperança e uma estrela
(não importa a ordem).

parece um sonho, Antonio
este lugar que moramos
e você fazendo amor:
o vento que abre
tanto as pernas
quanto os demônios que você me ensinou.
agora tenho mais demônios
do que quando casamos.
naquela época eu apenas sabia
que a primeira vez iria doer.
o resto aprendi tudo sozinha.
por isso neva
e nunca tivemos gelo,
apenas o barulho das crianças
e o canhão enferrujado.

veja lá
se encontram um tabuleiro de xadrez.
meu bisavô dizia
que o jogo de xadrez
explicaria a vida
se ele soubesse jogar,
por isso o enterrou bem longe
na esperança que seu segredo
não fosse achado por ninguém.
morreu sabendo apenas
que o peão andava para frente
e era peça
pouco importante.
o sol é longe, Antonio?
pensam que somos pobres
porque somos ignorantes
– eles não sabem
que você é alquimista
e que faremos ouro
com o parafuso da fábrica.

já está noite.
não quero fazer amor.

 

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▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
in “O mar sem nós”, Editora Urutau, Brasil SP, 2015

 

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░ Um evangelho úmido

Gostava que o mundo semeasse crimes,
que os sonhos fossem abertos com um machado.
No teatro, galgava o lugar desabado,
a fileira onde se podia fazer amor.
Queria entrar para sempre na fumaça
e desertar os traidores da sombra e da ira.
Sua mãe – não era sua mãe.
Seu pai – não era seu pai, etc.
Assim, para deixar sua casa intacta,
cobriu-a de memórias,
entregou-a ao coveiro mudo.
Era um passageiro, desses que se perdem.
Por isso, podia sempre dizer: “Eu retornei”.

Apreciava mudar as árvores de lugar
e também as montanhas.
Atirava a esmo nos escritórios
e somente distribuía as próprias dívidas.
Era, para as vacas, um novo profeta,
liberto das profecias e sobretudo do futuro.
Seus olhos nunca miravam a alvenaria
ou a engenharia fictícia dos filósofos,
porque ele sabia que o mundo não estava
assentado nas costas de um pote de barro.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sou um oleiro
[das coisas”.

Comia as ramagens que se multiplicam,
sobretudo durante a noite.
Não raro seu prato continha vidros de estrela.
Preferia o esquecimento das grandes eternidades
e não se entristecia com a origem de tudo.
Em sua mão, o espaço se inaugurava a partir de um vazio,
como um útero que viesse do céu.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sirvo às altitudes”.

 

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▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
Poema inédito publicado com prévia autorização do autor