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estas são as minhas quintas, os meus rebanhos
disfarçados de alcateia,
as azinhagas que dão
para o profundo anoitecer,
aqui os armazéns, cheios de fértil escuridão,
a grande colecção de colinas empacotadas
e minúsculas nuvens que incham com a chuva
dentro, e nenhum sino

perturba este sossego, esta mistura
que os corpos fazem e desfazem na paisagem,
e ainda as serpentes caminham a quatro patas, sem perigo algum,
e a boca beijada é quente de cordas e laços,
e o grande rio descia para a terra,
o meu amor alimentava-se de pedras e
sopro, possivelmente,
e os filhos nasciam aos molhes, um por um.

por uma fina folha entro na superfície
dos sonhos coloridos,
os cães, açoitados, ladram
aos pés do caçador,
estes são os campos que ardem para quem tem
dois olhos na cabeça,
a mesa, o guardanapo sobre o prato,
o certo limite.

 

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▪ António Franco Alexandre
(Viseu, n. 1944)
in “As moradas 1 & 2”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987

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░ Nesta última tarde em que respiro

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

 

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▪ António Franco Alexandre
(Viseu, n. 1944)
in “Uma fábula”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001