░ Página antiga de um diário inexistente

Mandei hoje cortar a araucária do
jardim.
_____Plantei-a ali há cerca de dezasseis
anos. Tinha um palmo de altura, como os
companheiros da Branca de Neve. Cresceu,
agigantou-se, ultrapassou o telhado da casa,
impregnou-se de azul.
_____Há dias, pelo S. João, pousou-lhe nos
ramos ásperos, penetrantes como agulhas,
um balão aceso. Ficou chamuscada, perdeu
a compostura, a elegância. Há nela, agora,
alguns ramos secos. Também em mim algo
vai secando, morrendo.
_____Mandei hoje cortar a araucária do
Jardim…

No mesmo dia

_____Adiei a decisão. Adiei-a, não: anulei-a.
Há feridas que não saram, males para os
quais não há remédio.
_____Ao subir, há pouco, ao terraço, reparei,
ajudado pelos olhos do Frederico e pela sua
sensibilidade ecológica, naqueles ramos
verdes a roçar as telhas. E recuei, então.
Emendei o gesto.
Cresce, minha araucária, cresce! De mim
não se dirá que tirei a vida a quem dei.

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▪ Albano Martins
(Fundão, n. 1930)
in “Assim São As Algas” – Poesia 1950-2000, Campo das Letras, Porto, 2000

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