░ Violoncelo

Quem não gosta dele diz que é
apenas uma mutação do violino
que foi corrida do coro.
Não é assim.
O violoncelo tem imensos segredos,
mas nunca soluça,
canta apenas na sua voz baixa.
Nem tudo se transforma numa canção,
porém. Às vezes apanhamos
um murmúrio ou um sussurro:
sinto-me sozinho,
não consigo dormir.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Without End: New and Selected Poems”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2002

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  Cello

 

Those who don’t like it say it’s
just a mutant violin
that’s been kicked out of the chorus.
Not so.
The cello has many secrets,
but it never sobs,
just sings in its low voice.
Not everything turns into song
though. Sometimes you catch
a murmur or a whisper:
I’m lonely,
I can’t sleep

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Without End: New and Selected Poems”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2002
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

 

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░ Blake

Observo William Blake, que descobria anjos
nas copas das árvores todos os dias,
encontrou Deus nas escadas
da sua pequena casa e via luz em vielas sujas —
Blake que morreu cantando alegremente
numa Londres apinhada
de prostitutas, almirantes e milagres,
William Blake, gravador, que trabalhou
e viveu na pobreza mas não em desespero,
que recebeu sinais ardentes
do mar e do céu estrelado,
que nunca perdeu a esperança, pois a esperança
renascia sempre como a respiração,
vejo os que como ele caminharam por ruas sombrias,
a caminho da orquídea rósea da madrugada.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2008

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Blake

 

I watch William Blake, who spotted angels
every day in treetops
and met God on the staircase
of his little house and found light in grimy alleys—
Blake, who died
singing gleefully
in a London thronged
with streetwalkers, admirals, and miracles,
William Blake, engraver, who labored
and lived in poverty but not despair,
who received burning signs
from the sea and from the starry sky,
who never lost hope, since hope
was always born anew like breath,
I see those who walked like him on graying streets,
headed toward the dawn’s rosy orchid.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Eternal Enemies”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2008
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh

░ En Route

 

1- SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2- NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3- UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4- MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5- SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6- VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7- A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8- REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9- GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10- O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11- UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12- UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13- LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14- DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

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Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)