░ ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado con autorización previa del autor

 

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░ DECISÕES GRAVES

Rasgar fotografias
com desgosto
ritual, meticuloso na destruição
como Antero de Quental.

Escrever, por não querer dizer,
ansioso de calar-me, de
caiar-me uma noite
iluminado luto,
canção da ponte admirável
quando eu era um rio a correr
ao teu encontro.

A realidade não dá descanso a ninguém
acordado; e muito menos ao poeta
que dorme bem desperto, a sono preso
ao sonho e para além do sonho
adensado em tumulto de mistério.

Desligar as estrofes, experimentar ignorar
com consciência: sair para poder entrar
por outra porta. Há uma infinidade de portas.
Muito poucas estão abertas.

 

_
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea”, Averno, Lisboa, 2011

░ GOLPE

Por medo da insónia adio o sono
nas noites em que com um golpe frio
a memória levanta a onda morta
do irrecuperável: o que adio?

Estou deitado num tempo muito extenso
entre a luz e o escuro, estou perdido
entre o imaginado e a verdade
de um mundo sem imagens: o que adio

não é o sono de que temo a falta
nem o sonho feroz nele contido
é a história do corpo percutindo
na fundura impiedosa do vazio

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Existência”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017

░ CARTA DE BEATRIZ A DANTE

 

(Em um dia impossível de precisar)
 

Por vontade divina
nos une a memória.
A sombra próxima do teu tormento
se mescla com a minha
brandamente como se entrasse no paraíso.
Agonia!
emerges do fundo dos séculos.
Se pudesse lançaria teu nome
aos braços infinitos da noite.
Livre
seria uma ave intocada pelo céu.
Esguia sombra
fulguras desterrada.
Quando retornares ao paraíso
será meu rosto
uma visão com velas
acesa em desolação.
Será meu corpo
um traje rumoroso
sobre ossos luzentes.
Que fatalidade
encadeia a alma
com as ilusões falidas?
É bom guardar silêncio
Quando se viu o fogo
cair do céu.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colombia, n. 1977)
in “Poesía en sí misma”, Universidad Externado de Colombia, Bogotá, 2007

Mudado para português por _Gustavo Petter_ (Poeta e tradutor), mora em Araçatuba/SP-Brasil, trabalha como professor da rede estadual. Mantém o blog agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

CARTA DE BEATRIZ A DANTE
(En un día imposible de precisar)

 

Por voluntad divina
nos une la memoria.
La sombra de tu cercano tormento
se mezcla con la mía
blandamente como si entrara al paraíso.
¡Agonía
emerges desde el fondo de los siglos!
Si pudiera lanzaría tu nombre
a los brazos infinitos de la noche.
Libre
sería un ave no tocada por el cielo.
Espigada sombra
fulguras desterrada.
Cuando retornes al paraíso
será mi rostro
una visión con velas
encendida en desolación.
Será mi cuerpo
un traje rumoroso
en los huesos lucientes.
¿Qué fatalidad
encadena el alma
con las ilusiones fallidas?
Es bueno guardar silencio
cuando se ha visto al fuego
caer del cielo.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colombia, n. 1977)
Poema del libro “Poesía en sí misma”, Universidad Externado de Colombia, Bogotá, 2007