░ Um Chagall e uma folha de árvore

Gastei as minhas poupanças todas numa litografia de Chagall e coloquei-a junto
a uma folha de carvalho que apanhara na estrada —
uma coisa a que podemos dar um preço
e outra a que não —

algo que uma mão e um coração humanos fizeram
e algo feito pela natureza.

O Chagall é maravilhoso.
A folha de carvalho também.

Levanto-me e preparo chá,
com o sol suave da tarde a cair sobre a mesa.

Ao olhar para o Chagall,
voltam até mim aqueles dias passados com ela.

Quando olho a folha de carvalho
penso na delicadeza do criador.

Uma folha e o Chagall —
ambos insubstituíveis e preciosos

O som de Ravel ao piano eleva-se.
Hoje e a eternidade em uníssono.

O coração e o corpo misturam-se com o céu azul para lá da janela.
…… De onde vêm estas lágrimas?

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japão, n. 1931)
in “A Chagall and a Tree Leaf”

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático) com base em traduções para inglês de William I. Elliott & Kazuo Kawamura.



– Version by William I. Elliott and Kazuo Kawamura –

 

░ A Chagall and a Tree Leaf

 

I spent all my savings on a Chagall lithograph and placed it beside
an oak leaf I had picked up on the road —

something we can put a price on
and something we can’t —

something that human heart and hand have produced
and something that nature has.

The Chagall is beautiful.
The oak leaf is also beautiful.

I get up and make tea,
with soft afternoon sunlight falling on the table.

Looking at the Chagall,
those days spent with her come back to me.

When I look at the oak leaf
I think of the creator’s delicacy.

A leaf and the Chagall —
both are irreplaceably precious.

The sound of Ravel on the piano heightens.
Today becomes one with the eternity.

Heart and body melt into the blue sky beyond the window.
…… Where do these tears come from?

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japan, b. 1931)
in “A Chagall and a Tree Leaf”, Translated from the Japanese by William I. Elliott and Kazuo Kawamura

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░ Um evangelho úmido

Gostava que o mundo semeasse crimes,
que os sonhos fossem abertos com um machado.
No teatro, galgava o lugar desabado,
a fileira onde se podia fazer amor.
Queria entrar para sempre na fumaça
e desertar os traidores da sombra e da ira.
Sua mãe – não era sua mãe.
Seu pai – não era seu pai, etc.
Assim, para deixar sua casa intacta,
cobriu-a de memórias,
entregou-a ao coveiro mudo.
Era um passageiro, desses que se perdem.
Por isso, podia sempre dizer: “Eu retornei”.

Apreciava mudar as árvores de lugar
e também as montanhas.
Atirava a esmo nos escritórios
e somente distribuía as próprias dívidas.
Era, para as vacas, um novo profeta,
liberto das profecias e sobretudo do futuro.
Seus olhos nunca miravam a alvenaria
ou a engenharia fictícia dos filósofos,
porque ele sabia que o mundo não estava
assentado nas costas de um pote de barro.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sou um oleiro
[das coisas”.

Comia as ramagens que se multiplicam,
sobretudo durante a noite.
Não raro seu prato continha vidros de estrela.
Preferia o esquecimento das grandes eternidades
e não se entristecia com a origem de tudo.
Em sua mão, o espaço se inaugurava a partir de um vazio,
como um útero que viesse do céu.
Por isso, podia sempre dizer: “Não sirvo às altitudes”.

 

_
▪ Augusto Meneghin
(Brasil SP, n. 1987)
Poema inédito publicado com prévia autorização do autor

░ UM SENHOR DE AZUL

e de barba por fazer. Aproveita
a época baixa, o desdém
de algum jovem desiludido
para tentar, uma vez mais, o amor.
Passeia sem ninguém a acompanhá-lo.
Dorme pouco. Não teve nada e agora,
na cidade, basta estender a mão:
os livros estão todos, corpos sempre
aguardam nesse bar conhecido.
Basta passar a porta que o faça feliz.
Por isso ano atrás de ano se veste
de azul, descuida o seu aspecto, fuma,
e regressa na época baixa
ao lugar afastado. Tal como então.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in ”Trípticos Espanhois 2º VOLUME”, Editora Relógio de Água, 2005, Lisboa

Mudado para português por _ Joaquim Manuel Magalhães _ (Ensaísta, poeta e professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa)

░ Blake

Observo William Blake, que descobria anjos
nas copas das árvores todos os dias,
encontrou Deus nas escadas
da sua pequena casa e via luz em vielas sujas —
Blake que morreu cantando alegremente
numa Londres apinhada
de prostitutas, almirantes e milagres,
William Blake, gravador, que trabalhou
e viveu na pobreza mas não em desespero,
que recebeu sinais ardentes
do mar e do céu estrelado,
que nunca perdeu a esperança, pois a esperança
renascia sempre como a respiração,
vejo os que como ele caminharam por ruas sombrias,
a caminho da orquídea rósea da madrugada.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, Editora Farrar, Straus and Giroux, EUA, 2008

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Blake

 

I watch William Blake, who spotted angels
every day in treetops
and met God on the staircase
of his little house and found light in grimy alleys—
Blake, who died
singing gleefully
in a London thronged
with streetwalkers, admirals, and miracles,
William Blake, engraver, who labored
and lived in poverty but not despair,
who received burning signs
from the sea and from the starry sky,
who never lost hope, since hope
was always born anew like breath,
I see those who walked like him on graying streets,
headed toward the dawn’s rosy orchid.

 

_
▪ Adam Zagajewski
(Poland, b. 1945)
From “Eternal Enemies”, Published by Farrar, Straus and Giroux, USA, 2008
Translated, from the Polish, by Clare Cavanagh