░ No fogo das estradas é que

No fogo das estradas é que
o medo de ter
tempo de mais as mãos pousadas
no amor nas espáduas
na amargura do rio
é que molhar as mãos
na água dos joelhos e andar
um pouco mais ainda sobre o fogo
das pernas e alcançar a terra
o ar do tronco o vapor o
movimento infindável do corpo em torno
do amor é que o mar as estradas
é que a locomoção por sobre a mágoa
no fogo das estradas é que tudo
se pode incendiar

 


▪ Gastão Cruz
(Portugal, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

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░ Conversas com Federico García Lorca

1. O alfarrabista

Entrar pela estreita porta e quase invisível
No aparato capitalista da Broadway Avenue.
Avançar por entre pilhas de saber
No desfiladeiro do escuro corredor,
Lá como cá de soalho de tacos
Mais rudes que tijolos
Mas sentirmo-nos ainda assim na caverna de Platão,
Ávidos da realidade que no papel transpira.
As paredes revestidas por duas e três camadas de volumes, a
capa brilhante, plastificada, outros
Cerrados na clausura de profundas encadernações
De couro gravadas a lume.
E os dedos que ousam, como tentáculos,
Tocar ao vivo a Poesia.
Põe os óculos e busca algo como
Poeta en Nueva York, do desgraçado Lorca,
A quem a selvajaria do Poder
Assassinou do modo mais atroz.
Porém, os dedos, em vez dele, acham por si sós
E logo à primeira tentativa de saque
Outra cena tão diferente…

Um velho, as brancas barbas, entalado entre
Jovem alfarrabista que ao computador escreve
E a barragem inexpugnável de livros,
Num banquinho rente ao chão sentado
O olhar azul-beatnik ergue para a intrusa,
Interpelando-a, sem recato:
– Why did Elisabeth Barret Browning
Give that book the title Sonnets from the Portuguese?
– Não sei -, responde a estrangeira,

 

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▪ Maria Estela Guedes
(Portugal, n. 1947)
in “Dracula Draco”, Editor Organização da Academia Internacional Oriente-Ocidente, Curtea de Arges, Roménia, 2017

░ 8

estas são as minhas quintas, os meus rebanhos
disfarçados de alcateia,
as azinhagas que dão
para o profundo anoitecer,
aqui os armazéns, cheios de fértil escuridão,
a grande colecção de colinas empacotadas
e minúsculas nuvens que incham com a chuva
dentro, e nenhum sino

perturba este sossego, esta mistura
que os corpos fazem e desfazem na paisagem,
e ainda as serpentes caminham a quatro patas, sem perigo algum,
e a boca beijada é quente de cordas e laços,
e o grande rio descia para a terra,
o meu amor alimentava-se de pedras e
sopro, possivelmente,
e os filhos nasciam aos molhes, um por um.

por uma fina folha entro na superfície
dos sonhos coloridos,
os cães, açoitados, ladram
aos pés do caçador,
estes são os campos que ardem para quem tem
dois olhos na cabeça,
a mesa, o guardanapo sobre o prato,
o certo limite.

 

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▪ António Franco Alexandre
(Viseu, n. 1944)
in “As moradas 1 & 2”, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987