░ Os artistas do momento

ah, quanta da arte que agora se faz
é puro entulho: estilo baralha e volta a dar.
é só ter a compulsão de instalar
e ser um bom rapaz,
usando lixos convincentes,
e, mais do que barriga, ter bons dentes.
conquista-se espaço cultural de um jacto.
o que é preciso é ter um bom contacto.
e, o que mais interessa , pelo sim pelo não,
é aparecer na televisão.
na solene parada das vaidades,
desfila os eleitos e confrades,
qual deles o mais gabiru,
arrastando a sua instalação.

e o povoléu aplaude
e não vê que o rei vai nu.

 

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▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ Pode ser, que o terrível não tenha explicação

Pode ser, que o terrível não tenha explicação
E que a luz seja só a presença de silêncio.
Pode ser.

Pode ser que letra a letra se construa
O veneno insuficiente da palavra
De todo já perdida para a vida.
Pode ser.

Pode ser que eu seja peixe fora d’água
Sufocado na areia tonta de uma praia
Pode ser.

Pode ser que eu não passe
De cometa sossobrante
Num buraco escura da galáxia.
Pode ser.

Mas o que será que agora,
Para quem julgue ver-me,
Pareço neste instante ?

 

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▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ Epigrafia #2

«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»

Ana Paula Inácio, Anónimos do séc. XXI, Averno, 2016

 

Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

 

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▪ Sandra Costa
(Trofa, n. 1971)
Inédito publicado com autorização prévia da autora