░ Ao sul

Ao sul de algum país está a minha casa
com discos de Bob Dylan e Purcell, e facturas,
e pudim de Yorkshire e livros a esperar-me,
e vozes que se cruzam pelos seus aposentos.
Mas o sangue tão frio do jasmim atravessa-me
quando a tarde tomba e escrevo, como agora,
ou pelo meus ausentes me calo no terraço.
Um cão grande acossado ladra no elevador.

 

 

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▪ María Victoria Atencia
(Málaga, n. 1931)
in “Paulina o El Libro de Las Aguas”, Antologia Poética, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Tradução – José Bento

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░ Não sabemos nada

Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou o nosso anseio,
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem devia esperar-nos, nem quem
nos cabia a nós esperar no meio
da gare fria. Não sabemos nada.
Seguimos tacteando e sem saber
se isto que parece ser alegria
não será apenas o sinal claro
de que outra vez voltámos a enganar-nos.
 

(de Roto Madrid, 2008)

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▪Amalia Bautista
(Espanha, n. 1962)
in “Poética y Poesía”, Fundación Juan March, Madrid, 2008

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _(Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

NADA SABEMOS

 

Nunca sabremos si los engañados
son los sentidos o los sentimientos,
si viaja el tren o viajan nuestras ganas,
si las ciudades cambian de lugar
o si todas las casas son la misma.
Nunca sabremos si quien nos espera
es quien debe esperarnos, ni tampoco
a quién tenemos que aguardar en medio
del frío de un andén. Nada sabemos.
Avanzamos a tientas y dudamos
si esto que se parece a la alegría
es sólo la señal definitiva
de que hemos vuelto a equivocarnos.

(de Roto Madrid, 2008)

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▪Amalia Bautista
(España, n. 1962)
in “Poética y Poesía”, Fundación Juan March, Madrid, 2008

 

░ Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas

Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas chegando e
partindo. O mar mais fundo, mais vasto. O papagaio na gaiola de
bambu falava várias línguas. O capitão no daguerreótipo tinha as
bochechas pintadas de vermelho. Ele trouxe uma rapariga semi-
nua dos trópicos que mantinham presa no sobrado mesmo
depois da morte dele. À noite ela emitia sons que poderiam ser
um cântico. O capitão falou de uma raça de homens sem boca
que subsistiam apenas com o cheiro das flores. O que fez com
que a sua mulher e a sua mãe dissessem uma oração pela salvação
de todas as almas não baptizadas. Uma vez, contudo, descobri-
mos o capitão a tirar a sua barba. Era falsa! Por baixo tinha outra
barba que parecia igualmente absurda.
Era o tempo dos passeios de viúvas atarefadas. As línguas mortas
do amor ainda se usavam, mas também muito silêncio, muita gri-
taria muda em altos berros.

 

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▪ Charles Simic
(Jugoslávia, n. 1938)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Mudado para português – José Alberto Oliveira

░ Árvore dos cílios

 

… e quando me resignei na ilha das pálpebras
em ser o hóspede das conchas e dos rastros
vi que o destino é um frasco
com águas e fagulhas
pronto a fazer do homem
mito ou fogo lendário,

eu ia carregado sobre os ramos
num bosque lácteo enfeitiçado
seu dia, consagrado à loucura, era
minha cidade, e a noite recinto íntimo.

 

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▪ Adonis
(Síria, n. 1930)
in ”Adonis [poemas]”, Selecção e tradução do árabe de Michel Sleiman, Companhia das Letras, SP Brasil, 2012