░ En Route

 

1- SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2- NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3- UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4- MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5- SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6- VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7- A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8- REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9- GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10- O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11- UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12- UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13- LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14- DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

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Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)

░ Optimismo

Tenho vindo a admirar cada vez mais a resiliência.
Não a resistência simples de uma almofada cuja espuma
volta repetidamente à mesma forma, mas a tenacidade
sinuosa de uma árvore: tendo a luz de um lado sido bloqueada não há muito,
vira-se para outro. Uma inteligência cega, claro.
Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,
mitocôndria, figos – toda esta terra resinosa, que se não retrai.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Optimism

 

More and more I have come to admire resilience.
Not the simple resistance of a pillow, whose foam
returns over and over to the same shape, but the sinuous
tenacity of a tree: finding the light newly blocked on one side,
it turns in another. A blind intelligence, true.
But out of such persistence arose turtles, rivers,
mitochondria, figs — all this resinous, unretractable earth.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “Given Sugar, Given Salt: Poems”, HarperCollins Publishers, E.U.A, 2001

 

░ A FAMÍLIA DE DORIAN GRAY

A minha mãe é socialista.
O meu pai ao fim desta rua cortando à direita.
Suspensa de uma lua em forma de bolacha,
vejo passar mendigos, oiço cruzar as sombras
dos que escrevem versos para a Academia.
A minha educação sentimental é um barco de papel
no tanque dos livros, as luvas do avesso de Wilde,
as alegres comadres do ambíguo Shakespeare.
Não quero dar a volta ao mundo,
por menos que isso cortaram a cabeça ao Rei Sol.
Eu tenho outra paixão, toda a gente tem outra paixão,
tem-na o girassol, a bandeira do meu país tem uma estrela,
os miúdos judeus têm um violinista no telhado,
a cor negra tem paixão pelas formigas.
O verão tardará a chegar, a minha família inventou o outono,
o meu pai no jardim há-de varrer as folhas,
a minha mãe vai contemplar a neve,
eu acenderei outra fogueira.
É assim a vida, razões para arder,
o clube de Dorian Gray, o céu, as estrelas.

 

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▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA FAMILIA DE DORIAN GRAY

 

Mi madre es socialista.
Mi padre al final de esta calle torciendo a la derecha.
Colgada de la luna con forma de galleta
veo pasar mendigos, oigo cruzar las sombras
de los que escriben versos hacia la Academia.
Mi educación sentimental es un barco de papel
en el estanque de los libros, los guantes del revés de Wilde,
las alegres comadrejas del ambiguo Shakespeare.
Yo no quiero dar la vuelta al Mundo,
por menos al Rey Sol le cortaron la cabeza.
Tengo otra pasión, todo el mundo tiene otra pasión,
el girasol la tiene, la bandera de mi país tiene una estrella,
los muchachos judíos tienen un violinista en el tejado,
el color negro tiene pasión por las hormigas.
El verano tardará en llegar, mi familia inventó el otoño,
mi padre en el jardín barrerá las hojas,
mi madre mirará la nieve,
yo encenderé otra hoguera.
Así es la vida, razones para arder,
el club de Dorian Gray, el cielo, las estrellas.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

 

░ Da capo

Pegue no coração gasto como se fosse um seixo
e atire-o para longe.

Pouco tempo depois não haverá nada.
Em pouco tempo a última onda cansar-se-á
nas ervas daninhas.

Tendo regressado a casa, corte cenouras, cebolas às rodelas e aipo.
Ao lume envolva em azeite antes de juntar
as lentilhas, água e ervas aromáticas.

As castanhas tostadas a seguir, um pouco de pimenta, o sal.
Para terminar, o queijo de cabra e salsa. Sirva-se.

Pode fazer isto, digo-lhe eu, é permitido.
Comece a história da sua vida novamente.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Da Capo

 

Take the used-up heart like a pebble
and throw it far out.

Soon there is nothing left.
Soon the last ripple exhausts itself
in the weeds.

Returning home, slice carrots, onions, celery.
Glaze them in oil before adding
the lentils, water, and herbs.

Then the roasted chestnuts, a little pepper, the salt.
Finish with goat cheese and parsley. Eat.

You may do this, I tell you, it is permitted.
Begin again the story of your life.

 

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▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997