░ Reencontro

Na noite infinita dos que não têm consolo,
Sob a tremenda luz do suicídio perdem-se
suas palavras talvez, enquanto o gelo range
pelo amor que um dia, por certo, contiveram,
e que agora os levanta – oh, sim: bem lentamente –
até à própria face da Suprema Beleza.

 

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▪ María Victoria Atencia
(Málaga, n. 1931)
in “El coleccionista”, Antologia Poética , Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
Tradução – José Bento

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░ UM SENHOR DE AZUL

e de barba por fazer. Aproveita
a época baixa, o desdém
de algum jovem desiludido
para tentar, uma vez mais, o amor.
Passeia sem ninguém a acompanhá-lo.
Dorme pouco. Não teve nada e agora,
na cidade, basta estender a mão:
os livros estão todos, corpos sempre
aguardam nesse bar conhecido.
Basta passar a porta que o faça feliz.
Por isso ano atrás de ano se veste
de azul, descuida o seu aspecto, fuma,
e regressa na época baixa
ao lugar afastado. Tal como então.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
in ”Trípticos Espanhois 2º VOLUME”, Editora Relógio de Água, 2005, Lisboa

Mudado para português por _ Joaquim Manuel Magalhães _ (Ensaísta, poeta e professor catedrático na Faculdade de Letras de Lisboa)

░ GARÇAS

As garças procuram dias claros
para voar nos binóculos
que as observam. Sobrevoam
a baixa altura o bosque
e planam ao longo das margens,
perto dos juncos, passe-partout entre moldura
e desenho. Submergem até meio
das pernas e o bico inteiro
nas águas, avançam
devagar, traçam círculos
perfeitos à superfície
e provocam um leve chapinhar
que só os silêncios do rio
escutam quando o leito
confunde o que flui
com o que permanece.
E em tamanha quietude
imprimem no ar ameno
o ronco destemperado
do seu grasnido. Nada se compreende
então. Assim actua
a realidade.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

GARZAS

 

Las garzas buscan días claros
para volar en los prismáticos
que las observan. Sobrevuelan
a baja altura el bosque
y planean por las orillas,
junto a los juncos, paspartú entre marco
y dibujo. Sumergen la mitad
de sus zancas y el pico entero
en las aguas, avanzan
despacio, trazan círculos
perfectos en la superficie
y provocan un leve chapoteo
que solo escuchan los silencios
del río cuando el cauce
confunde lo que fluye
con lo que permanece.
Y entre tanta quietud,
estampan por el aire ameno
la ronca destemplanza
de su graznido. Nada se comprende
entonces. Así actúa
la realidad.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado con autorización previa del autor

░ ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado con autorización previa del autor