░ Sinto a falta de D. L.

sentado

ao
piano

apercebendo-se

de que as mãos


não estão

em harmonia
…………… uma

com a outra

 

_
▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░  I am missing D. L.

 

sitting

down at the
piano

finding

that the hands

are
no longer
in sympathy with

……….……..…. one
another

 

_
▪ Mark Young
(New Zealand, b. 1941)
From “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

 

░ HINO A SATÃ

Somente a neve sabe
a grandeza do lobo
a grandeza de Satã
vencedor da pedra desnuda
da pedra desnuda que ameaça o homem
que invoca em vão a Satã
senhor do verso, desse agulheiro
na página
por onde a realidade
cai como água morta.

 

HINO A SATÃ (2ª versão)

A grandeza do lobo
não é a penumbra
nem o ar
é somente o fulgor de uma sombra
de um animal ferido no jardim
à noite, enquanto tu choras
como no jardim um animal ferido.

 

HINO A SATÃ (3ª versão)

Os cães invadem o cemitério
e o homem sorri, inquieto
ante o mistério do lobo
e os cães invadem a rua
em seus dentes brilha a lua
mas nem tu nem ninguém, homem morto
espectro do cemitério
saberá se aproximar amanhã nem nunca
do mistério do lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

HIMNO A SATÁN

 

Sólo la nieve sabe
la grandeza del lobo
la grandeza de Satán
vencedor de la piedra desnuda
de la piedra desnuda que amenaza al hombre
y que invoca en vano a satán
señor del verso, de ese agujero
en la página
por donde la realidad
cae como agua muerta.

 

HIMNO A SATÁN (2ª versión)

La grandeza del lobo
no es la penumbra
ni aire
es sólo el fulgo de una sombra
de un animal herido en el jardín
de noche, mientras tú lloras
como en el jardín in animal herido.

 

HIMNO A SATÁN (3ª versión)

Los perros invaden el cementerio
y en hombre sonríe, extrañado
ante el misterio del lobo
y los perros invaden la calle
y en sus dientes brilla la luna
pero ni tú ni nadie, hombre muerto
espectro del cementerio
sabrá acercarse mañana ni nunca
al misterio del lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

░ As minhas mãos haviam esquecido Lorca

Embora o meu corpo estivesse cheio dele pois
passara parte do sábado anterior a discutir
a sua poesia com um marinheiro chileno, as minhas mãos
haviam esquecido Lorca.

………………………………. Até esta noite em que,
dando uma vista de olhos a uma antologia,
deparei com um poema dele chamado Córdoba.

E, abrindo um atlas para procurar
esta cidade, apercebi-me ao deslocar
os dedos sobre o mapa de Espanha

de que afagava a face de Lorca.

 

_
▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “The Right Foot of the Giant“ publicado por Bumper Books em 1999

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ MY HANDS HAD FORGOTTEN LORCA

 

Though my body was full of him, for I
had spent part of last Saturday discussing
his poetry with a Chilean sailor, my hands
had forgotten Lorca.

……………………………… Until tonight, when,
glancing through an anthology,
I came across a poem of his, called Córdoba.

And, opening an atlas to search
for this city, realised as I ran
my fingers over the map of Spain

that I was stroking Lorca’s face.

 

_
▪ Mark Young
(New Zealand, b. 1941)
From “The Right Foot of the Giant“ published by Bumper Books in 1999

 

░ Escrever

Se me roubarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me roubarem a luz escreverei na escuridão.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
serei eu a girar.
Se suspenderem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se estourarem as telas dos computadores,
se derrubarem as paredes, escreverei no meu sopro.
Se apagarem o fogo que me ilumina
Escreverei no fumo.
E quando o fumo já não existir
escreverei nos olhares que hão de nascer sem os meus olhos.
Se me roubarem a vida escreverei com a morte.

 

            (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(Espanha, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

Mudado para português por _ Giselle Unti_ nasceu em São Paulo, onde viveu até aos 20 anos. Licenciou-se em Letras Modernas em França e conta vários livros publicados na área de Ciências Humanas. Actualmente vive em Lisboa e trabalho como tradutora freelancer para várias instituições e editoras.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Escribir

 

Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

 

          (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(España, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012