░ Epigrafia #2

«explica-me este verso
pedias
como se a luz
pudesse
permanecer intacta
sobre a tua mão.»

Ana Paula Inácio, Anónimos do séc. XXI, Averno, 2016

 

Não expliques nenhum verso.
Peço-te.

Deixa que a luz tombe
sobre as janelas quase abandonadas
da varanda

e que as sombras de ferro forjado
que perduram nas cortinas
mesmo anoitecendo

sejam a única coisa intacta
no interior do poema.

 

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▪ Sandra Costa
(Trofa, n. 1971)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

░ En Route

 

1- SEM BAGAGEM

….. Viajar sem bagagem, dormir no comboio
….. num banco de madeira duro,
….. esquecer a terra natal,
….. sair de pequenas estações
….. quando um céu cinzento se levanta
….. e os barcos de pesca se dirigem para o mar.

 

2- NA BÉLGICA

….. Na Bélgica chuviscava
….. e o rio serpenteava entre montes.
….. Sou tão imperfeito, pensei.
….. As árvores estavam nos campos
….. como padres de sotainas verdes.
….. Outubro escondia-se nas ervas.
….. Não, minha senhora, disse eu,
….. este é o compartimento de não faladores.

 

3- UM FALCÃO ÀS VOLTAS POR CIMA DA AUTO-ESTRADA

….. Ficará desapontado se se lançar
….. sobre uma placa de ferro, gasolina,
….. uma cassete de música rasca,
….. os nossos corações apertados.

 

4- MONT BLANC

….. De longe brilha, branco e cauteloso,
….. como uma lanterna para as sombras.

 

5- SEGESTA

….. No campo um vasto templo—
….. um animal selvagem
….. aberto ao céu.

 

6- VERÃO

….. O verão era gigantesco, triunfante—
….. e o nosso pequeno carro parecia perdido
….. na estrada para Verdun.

 

7- A ESTAÇÃO EM BYTOM

….. No túnel subterrâneo
….. crescem pontas de cigarro,
….. não malmequeres.
….. Tresanda a solidão.

 

8- REFORMADOS NUMA VIAGEM DE ESTUDO

….. Estão a aprender a andar
….. em terra.

 

9- GAIVOTAS

….. A eternidade não viaja,
….. a eternidade espera.
….. Num porto de pesca
….. só as gaivotas são faladoras.

 

10- O TEATRO EM TAORMINA

….. Do teatro em Taormina vê-se
….. a neve no cume do Etna
….. e o mar resplandecente.
….. Qual é o melhor actor?

 

11- UM GATO PRETO

….. Um gato preto sai para nos saudar
….. como a dizer olhem para mim
….. e não para uma velha igreja românica.
….. Eu estou vivo.

 

12- UMA IGREJA ROMÂNICA

….. No fundo do vale
….. uma igreja Românica em repouso:
….. há vinho neste barril.

 

13- LUZ

….. Luz nas paredes de casas velhas,
….. Junho.
….. Transeunte, abre os olhos.

 

14- DE MADRUGADA

….. A materialidade do mundo ao amanhecer –
….. e a fragilidade da alma.

 

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▪ Adam Zagajewski
(Polónia, n. 1945)
in “Eternal Enemies”, published by Farrar, Straus and Giroux, New York, 2008

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Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão para inglês de Clare Cavanagh | (https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57094)

░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

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▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

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▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998