░ KARI GRIMSBØ, HANDEBOL

¿Então
Ingmar
foi assim que me
ensinaste Vishnu a
nossos olhos formada
tomando o que restaria desta
cidade?

 

_
▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “Vista de Olímpia”, Editora 7Letras, RJ Brasil, 2016

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░ UM CANTO PARA WHITMAN

do sofrimento,
————– eu fiz um canto.

da alegria,
———– —da luta,
do fracasso,
————- do amor,
————- e do sol e do luar,
eu fiz um canto.

da miséria toda desta vida,

—————da minha pequenez,
—————da minha imensidão,

da sede infinita de infinito,

———–das certezas que não tenho,
eu fiz um canto.

da minha compaixão,

————– de palavras mendigadas,
no firmamento, na terra,
————– nas montanhas e nos mares,
———- —-aos animais
e ás árvores,
—————-à chuva
às tempestades,
—————-eu fiz um canto.

da noite
—————e da madrugada,
da melodia
—————e do silêncio,
dos vivos
—————e até dos mortos,

e do meu jardim secreto,

—————-com aromas e sabores
e dos tormentos dos homens,

do aço das duas fábricas,

eu fiz um canto.

da loucura,
————– do meu corpo,
e da guerra que há na paz,

————–de toda a minha ternura,
da minha raiva,
————–e descrença,
————–e até da minha esperança,
eu fiz um canto.

de tudo o que em mim ferveu,
————-do humano,
ao desumano,
————-céu e inferno,
do mortal ao imortal,
————-do Nascente
e do Sul,
———— do Poente,
e do Norte,
———— eu fiz um canto.

da prostituta perdida,
—————– dos meus olhos mentirosos,
do tempo que nunca volta,
—————– do desespero dos sábios,
da inocência dos tontos,
—————- eu fiz um canto.

do silêncio
—————- e da palavra,
do secreto
—————- e do patente,
da liberdade,
—————- do escravo,
e do senhor, que é o mais servo,
—————- eu fiz um canto.

do fogo
—————- e das suas cinzas,
do sonho que me assombrou,
—————- do mistério que há em Tudo,
e do Nada transparente,
—————- eu fiz um canto.

esse canto se evolou,

—————- por cima da minha vida,
por cima da minha morte,
—————- fulminante como um raio
soando com um lamento,
—————- ardendo como um vulcão.

eu não sei quem o criou.

sei que voou de repente

e que depois, mansamente,

em meu coração pousou.

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Navegação imperfeita”, Editora Labirinto, Fafe, 2017

 

░ BOM DIA, MEMÓRIA

Das horas perdidas junto a uma taça de chá,
das horas sonhadas junto ao Gran Meaulnes,
quando as mãos dos poetas eram dois aviões de hélice
e a filha do jardineiro chamava Rimbaud à sua lagarta.
Bom dia memória dos espelhos apagados,
palavras para dizer sete coisas com os lábios verdes:
querido foulard de névoa, mel com pássaro.
Bom dia cheiro da erva cortada, pontes do Outono,
cavalos com meninas vietnamitas pelo céu de Paris.
Das horas passadas junto a Proust,
das lentas horas escutando Moustaki,
quando brilhavam nos gira-discos os girassóis negros
e era o coração um barco ébrio feito de papel.
A vida nunca é fácil, ser feliz, anoitecer,
a cegonha marca as seis na sua campainha,
nos cata-ventos do Oeste em Outubro vai chover.
Bom dia memória das coisas mais simples,
os olhos dos meus gatos, o seu acordeão e ele.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

Mudado para português por _ Sandra Santos_ (Portugal, 1994). Estudante, escritora e tradutora. Licenciada em Línguas e Relações Internacionais (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), é actualmente mestranda em Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro). Participa em projectos culturais, artísticos e literários. Traduz do português e inglês para o espanhol e do inglês e espanhol para o português. As suas traduções estão publicadas em Portugal, Espanha e América Latina, nos blogues e revistas “Cuaderno Ático”, “Buenos Aires Poetry”, “escamandro”, “Círculo de Poesía”, “Poesia vim buscar-te”, “Otro Páramo”, “La raíz invertida”, “mallarmargens”, “Bitácora de vuelos”, “Emma Gunst”, “Enfermaria 6” e “El Coloquio de los Perros”.



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 


░ BUENOS DÍAS, MEMORIA

 

De las horas perdidas junto a una taza de té,
de las horas soñadas junto al Gran Meaulnes,
cuando las manos de los poetas eran dos aviones de hélice
y la hija del jardinero llamaba Rimbaud a su oruga.
Buenos días memoria de los espejos borrados,
palabras para decir siete cosas con los labios verdes:
querido foulard de niebla, miel con pájaro.
Buenos días aroma de la hierba cortada, puentes del otoño,
caballos con niñas vietnamitas por el cielo de París.
De las horas pasadas junto a Proust,
de las lentas horas escuchando a Moustaki,
cuando brillaban en el tocadiscos los girasoles negros
y era el corazón un barco ebrio hecho de papel.
La vida nunca es fácil, ser feliz, anochecer,
la cigüeña marca las seis en su campana,
en las veletas del oeste octubre va a llover.
Buenos días memoria de las cosas más sencillas,
los ojos de mis gatos, su acordeón y él.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

░ ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Barcelona, n. 1960)
Inédito publicado con autorización previa del autor