░ Conversas com Federico García Lorca

1. O alfarrabista

Entrar pela estreita porta e quase invisível
No aparato capitalista da Broadway Avenue.
Avançar por entre pilhas de saber
No desfiladeiro do escuro corredor,
Lá como cá de soalho de tacos
Mais rudes que tijolos
Mas sentirmo-nos ainda assim na caverna de Platão,
Ávidos da realidade que no papel transpira.
As paredes revestidas por duas e três camadas de volumes, a
capa brilhante, plastificada, outros
Cerrados na clausura de profundas encadernações
De couro gravadas a lume.
E os dedos que ousam, como tentáculos,
Tocar ao vivo a Poesia.
Põe os óculos e busca algo como
Poeta en Nueva York, do desgraçado Lorca,
A quem a selvajaria do Poder
Assassinou do modo mais atroz.
Porém, os dedos, em vez dele, acham por si sós
E logo à primeira tentativa de saque
Outra cena tão diferente…

Um velho, as brancas barbas, entalado entre
Jovem alfarrabista que ao computador escreve
E a barragem inexpugnável de livros,
Num banquinho rente ao chão sentado
O olhar azul-beatnik ergue para a intrusa,
Interpelando-a, sem recato:
– Why did Elisabeth Barret Browning
Give that book the title Sonnets from the Portuguese?
– Não sei -, responde a estrangeira,

 

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▪ Maria Estela Guedes
(Portugal, n. 1947)
in “Dracula Draco”, Editor Organização da Academia Internacional Oriente-Ocidente, Curtea de Arges, Roménia, 2017

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