░ Poétique de la transcréation

Transcréer : décalquer jusqu’à l’os
tout le corps du poème bien-aimé
jusqu’au plus profond de son esprit
caché en chaque écho que j’épelle

Transporter le poème et son poids,
toutes ses plumes de jaspe bien sculpté,
dormir à son coté quelque part
du sommeil jusqu’au son éveillé

Réécrire mil fois le même vers
De rime pauvre, riche univers
en noble mélopée rituelle

Reprendre mil fois le spontané
vers, offert par Dieu et raturé
jusqu’à faire des trous sur le papier.

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▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015

Mudado do português por Eduardo Veras, pesquisador colaborador e pós-doutorando na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Brasil, onde atuou em 2016 como professor de Literatura Francesa. Especialista na obra de Charles Baudelaire, sobre quem escreveu tese de doutorado (UFMG, 2013), realizou dois estágios de pesquisa no “Centre de Recherche sur la Littérature Française du XIXe Siècle” da Université Paris-Sorbonne, sob a supervisão do professor Dr. André Guyaux. Atualmente, prepara uma nova tradução dos poemas em prosa de Baudelaire, de quem já traduzira o ensaio “L’École Païenne”. É autor de “O oratório poético de Alphonsus de Guimaraens” (Relicário, 2016) e co-organizador da coletânea de ensaios “Por uma literatura pensante: ensaios de filosofia e literatura” (Fino Traço, 2012). Tem publicado artigos sobre diversos poetas, brasileiros e franceses, em periódicos especializados.



VERSÃO ORIGINAL

░  POÉTICA DA TRANSCRIAÇÃO

 

Transcriar: decalcar até ao osso
o corpo do poema bem-amado,
até ao mais profundo do seu espírito
oculto em cada eco que soletro

Transportar o poema com seu pêso,
suas plumas de jaspe bem esculpido,
dormir com ele ao lado em qualquer sítio
até tornar o sono em som desperto

Reescrever mil vezes o mesmo verso
De rima pobre, rico d’universo
em nobre melopeia ritual

Recuperar mil vezes o espontâneo
verso, dado por Deus e rasurado
até fazer buracos no papel

 

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▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in “Pássaro-Lyra”, Editora Averno, Lisboa, 2015

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