░ Sobre as vossas mãos a memória

nicanor_noroes_A

O poema veio do pó.
Ele estava em pé
e era devorado por corvos.
Dele desci por uma cruz
e encontrei um ninho de vespas.
Sobre o meu coração depuseram cinzas
substituindo as estrelas por lanternas vermelhas.
E enquanto as crianças eram flageladas
pelo silêncio de Job
o meu sofrimento não tinha fronteiras…

Então as lágrimas de minha mãe correram
loucamente
como larvas acesas pela terra inteira,
diante das minhas faltas…
E iam e vinham galgando muros e montanhas
em grandes lençóis de poeira…
Das suas mãos jorravam relâmpagos
cuspindo fogo das entranhas…

Então gritei:
Mãe…Mãe…
Eu sou uma daquelas crianças…
E eles mataram-me…
Transformaram um rio de sangue num bosque de cadáveres…
O ouro tombou cego dentro da primavera
E as flores químicas da guerra sufocaram-me…

Meu pai pegava-me pela mão
ao colo
através do sofrimento do coração da erva e da lama…

E eu pegava em outras crianças
nos confins das trevas
lembrando-me de todos os seus nomes
fazendo-as descer amorosamente pelos meus ombros…

Ouvia depois
a voz tremenda dos ausentes nas sementes da memória…

Em mil campos se espalham.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com autorização prévia da autora

Fotografia | Fonte: Suplemento de Pernambuco

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