░ Acordo todos os dias à mesma hora

Acordo todos os dias à mesma hora.
Hoje acordei condecorada pela minha cabeleireira
que trabalha horas a fio para a autoridade tributária.
Preferia, se tivesse que ter preferências, ter sido condecorada
pelas mãos da lúcia canhoto ou ganhar um euro na raspadinha.
O pior é que me obrigaram a colocar uma fita ao pescoço.
Decidi-me então escrever ”as laranjas mecânicas do sr. barroso”.
Mas a guerra lixou tudo.
Doem-me os joelhos. Não me posso dobrar.
Se não fosse a minha tia e os bandidos que violaram o sistema de
—————————————————————————-[justiça
já tinha acabado o volume inteiro.
Assim continuo a derreter velas à noite,
a escrever cartas trocadas do marido para o amante.
Ninguém sabe, mas sou a favor da distribuição de poemas ao acaso
em vez de cigarros eletrónicos na boca uns-atrás-dos-outros.
Sim, porque há fumos e fumos e outras coisas notáveis
umas mais legais que outras. Noutro dia vi uma pomba na rua
a escolher do chão o que um cão tinha feito.
Quem sabe se tinha tomado brandy!
Chega a ser tocante. Às vezes uma maldição.
De duas em duas horas assisto ao sorteio de salários
com ou sem reposição de nomes.
Tenho a impressão que aterrei num planeta em saldo.
De resto para que serve ser cão? Tornei-me uma farda.
Conheço um gato licenciado que ainda não foi colocado.
Não sou o Lear.
Estou sentada num caixote de lixo com os olhos vendados.

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “Eufeme” nº. 3 – Magazine de Poesia, Porto, 2017

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