░ Manifesto

Eu quero fazer barulho com as palavras.
A vida deste lado é uma acção à distância.
Atenção, homens e mulheres, jovens e crianças, não vejo senão objectos com os pés enterrados no chão.
Eu quero fazer barulho com tudo o que está ao meu alcance.
Esqueçam que estou aqui com a boca cheia de vermes.
Os mortos, empalhados, estão de cabeça para baixo,
sem nenhuma informação.
Os comércios e as lojas onde as almas costumam passar os olhos
pelo túmulo dos objectos,
estão em pé entre o céu e o inferno!
Quero fazer barulho com as pernas, com os pés,
com o sangue das máscaras deste baile.
Não preciso de mais luz.
Só preciso de um pulmão que não me impeça de respirar com trovões e relâmpagos.
Aquela mulher, encostada ao balcão, foi abusada pelo presidente de uma instituição.
Que fale, se puder! Tragam-na cá!
Estou num estado desastroso de acção mental!
Os que estão ali são ratos insuportáveis!
Eu quero que esta mulher, abusada, venha a minha casa!
Quero que a sua dor encontre os meus olhos ! Sim. Os meus olhos!
Sem retenção, nem impropérios!
Ouviram?
Eh! E vocês, aí?!
Penteiam-se com a sua dor de manhã à noite…
Eu quero fazer barulho com tudo o que aparecer!
Eu quero fazer barulho com o Caos!
Eu quero fazer barulho com a minha mesa de trabalho!
Com o presidente da instituição que abusou do poder!
Debaixo da minha pele há o espírito de um verme!
(Ouviram?)
Refiro-me a um verme que anda de um lado para outro
a construir um Muro.
Eu quero fazer barulho! Ajudem-me!
Estou sempre a chocar com a respiração das pedras!
Quem me pode impedir de derrubar este clube de senso comum?!

Passei uma grande parte da minha vida a estudar números!
Comecei a vaguear pelas escolas.
E vinham-me à cabeça ideias genitais.
Naveguei quarenta anos, criando planos.
Os meus alunos faziam versos comigo.
Inventámos a assinatura do trovão e a tabuada das nuvens.
Com as rochas construímos uma tribo.
Tudo o que tínhamos pela frente vive agora em plena escuridão!
Quem nos pode impedir de derramar os oceanos e os icebergues?
Está tudo em movimento continuo?!
Os muros são feitos com milhões de indivíduos!
Vocês também o são.
O que é preciso é pensar mais um quinhão.
Fora o egoísmo!
Os nossos pés estão invertidos. As nossas cabeças produziram monstros.
A vida assim não tem sentido!
Esqueceram-se?,
Aquela mulher atrás do balcão foi abusada pelo presidente de uma instituição!
O que lhe fizeram?

A banca está autorizada a grandes ocultamentos.
Os fotógrafos instalaram as suas máquinas atrás de redomas de vidro!
O abuso de drogas favorece o extermínio dos velhos!
Os processos arrastam-se de pernas abertas atrás de biombos deprimidos, como estrelas de cinema domésticas!
A crueldade do globo entrou pelas casas dentro! pelos escombros, pelos buracos negros, pelos ventres.
Os doentes costumam cair na presença da sua própria sombra.

Está demonstrado, sabiam?

Passei uma grande parte da minha vida a estudar matemática!
Sou uma crente de luxo, no sentido do humor negro dos números.
Através de alguns mecanismos ridículos discute-se hipocraticamente a eutanásia!
A medicina está cheia de impostores e de tolos Que se transformaram com o tempo em bailarinos de computadores.
Apre!
A minha cabeça está cheia de piolhos!
O meu irmão foi ontem operado aos testículos!
Incharam como duas montanhas vermelhas…

A minha irmã, coberta de lama, observa as unhas roídas
à luz das tábuas da lei!
Por mais que uma vez ela bateu na face de meu Pai!
O julgamento nunca foi feito.
Agarrou-se a um verso da bíblia com os cabelos da minha própria mãe!

Estou aborrecida com todas estas coisas de Hoje.
Eu quero fazer barulho com tudo o que estiver ao meu alcance!
Não acredito que os Muros nasçam por geração espontânea!
Esqueçam que estou aqui. Não ressuscitarei mais nenhum poema.
Há que dizer as coisas como elas são!
Eu quero fazer barulho com tudo.
Eu quero fazer barulho com tudo o que estiver ao meu alcance!

 

_
▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Inédito publicado com prévia autorização da autora

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One thought on “░ Manifesto

  1. Muito legal! Visceral. Gostei da parte “A minha cabeça está cheia de piolhos!
    O meu irmão foi ontem operado aos testículos!
    Incharam como duas montanhas vermelhas…

    A minha irmã, coberta de lama, observa as unhas roídas
    à luz das tábuas da lei!”

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