░ a rosa é sem mais nem porquê

Angelus Silesius

uma mulher
espera
na margem do rio
para dizer ____o que não sabe

e o rio vê-a
e não a vê
e ela
na sua desnuda inexperiência
a ponto de chegar
ao que procura
isso
que talvez poderia dizer
mas não sabe
querer

canta
canta como se dormisse
no regaço da água
que a escreve
como falando
ao rio do seu corpo
que cala de desejo
na indecisa noite
que o inspira

e assim
na medida das coisas
espera
o que ansiaria preferir

um líquido tremor
uma música por cumprir
para saber
o que diz
quando diz
não saber

outono na ribeira
abertamente noite

não há
mais história além desta

uma mulher que invade
a página nervosa do desejo
como uma morte atenta
ao que vive
dentro dela

essa impaciência
por ser o que seria
se o coração falasse
calmo na sua orfandade

e o rio vê-a
e depois não a vê
e ela
que ignora o que soube
sem mais nem porquê a inverosímil casa
das coisas

canta
está cantando agora
como empreender um voo
até si mesma

e o rio vai
vai-se a pena escrita
levando a sua imagem
às terras do mar
onde ela
ainda não nasceu
e é já
uma conclusão

 

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



  VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ la rosa es sin por qué

Angelus Silesius

una mujer
espera
a la orilla del río
para decir ____lo que no sabe
y el río la ve
y no la ve
y ella
en su desnuda inexperiencia
a punto de llegar
a lo que busca
eso
que tal vez podría decir
pero no sabe
querer
canta
canta como dormirse
en el regazo del agua
que la escribe
como llamando
al río de su cuerpo
que calla de deseo
en la indecisa noche
que lo inspira
y así
en la medida de las cosas
espera
lo que ansiaría preferir
un líquido temblor
una música incumplida
para saber
qué dice
cuando dice
no saber
otoño en la ribera
abiertamente noche
no hay
más historia que ésta
una mujer que invade
la página nerviosa del deseo
como una muerte atenta
a lo que vive
dentro de ella
esa impaciencia
por ser lo que sería
si el corazón hablara
tranquilo en su orfandad
y el río la ve
y después no la ve
y ella
que ignora lo que supo
sin por qué la inverosímil casa
de las cosas
canta
está cantando ahora
como emprender un vuelo
hacia sí misma
y el río se va
se va la pena escrita
llevándose su imagen
a las tierras del mar
donde ella
todavía no nació
y es ya
una desinencia

_
▪ María Negroni
(Argentina, n. 1951)
in “de Arte y Fuga”, Editorial Pre-Textos, 2010

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