░ UMA OUTRA PRIMAVERA

Como andorinha que, em pleno Fevereiro,
chega do sul precipitadamente,
iludida por um dia prematuro
de Primavera, que rompeu a rotina
do frio e da chuva (mas não se repetirá) –

saio do esconderijo, solto-me no ar
e faço acrobacias, perseguindo
os poucos insectos que também
como a andorinha se equivocaram,
convocados por um sol que pouco dura.

Mas vem o dia seguinte e o inverno
com seu rol feroz de apoquentações
regressa nele e embarga-me o voo.

Então, contrariamente à andorinha
– que acha perfeitamente naturais
estes sobressaltos e embustes do tempo –,
proclamo a berros que fui ludibriado,
zango-me e mordo a língua.

Quando a espuma da ira se desfaz,
ponho-me atrás dos vidros como quem não quer
———————————            ———- ——-a coisa,
à espera de uma outra Primavera prometida,
menos fraudulenta e mais durável,
que um dia há-de vir, mas tarda tanto –
de novo recolhido, sedentário,
com a impaciência enroscada ao pescoço
como um langue pitão domesticado.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

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