░ I

Recordo os roseirais do tempo, as esmeraldas, as suas memórias
o verde é a cor das árvores seculares impenetráveis
ouço as noites cantar pelos campos dentro dos cedros
a morte acende dois castiçais movendo a pupila dos olhos

de um lado para outro há um agitar alto de crateras
a lua abre os lençóis da luz aos lábios dos vulcões da noite
poemas que se entranham noutros poemas dentro da aragem
e fundem-se as vozes dos jardins das corolas
luz inesgotável face da água
anjos da eternidade pedalando para sempre
cantando em violinos aéreos no perfume dos lilases

encontro-me na posição da chama que se desliga do corpo
sou uma paisagem vertical e grande
atravessada por um instrumento cirúrgico

sou uma limalha de sons uma borboleta ávida
que magneticamente atrai outras palavras ao tacto e à vidência
um renascimento uma lembrança uma vocação tremenda
pontos de água e fogo alimentam a boca-ânfora de uma criança
amor é o seu nome, um abstracto nome.
em grandes bosques do silêncio eu amo esta criança
dentro da aurora infantil dos seus dedos
pelas ramagens verdes o fresco fulgor das galerias de sombras
o mistério atravessa-a numa pedra acesa
da sua boca brotam o arbusto de um relâmpago uma flecha
em todo o seu lento e científico clamor
oh secretos lábios da minha amada infância
que rebenta em magnólias incendiadas em flor

e quando me inclino sobre os diques dos poentes
o fogo me recolhe em seus barcos de licor e mel
caio brutalmente latejando numa gruta aberta
perdida entre as altas torres das cidades
e as suas negras portas

os objectos parecem vozes nas pontas dos lápis
lá fora os semáforos estão cheios de fórmulas
apagamos as mãos mutilando os gestos
pela noite descem rosas de neve nos bosques

corro então alucinadamente para onde sou visível
os meus gritos mostram raras jóias na chaminé das casas
milhares de homens passam incessantemente
é nas palavras que me deposito em cinzas

uma raiz da noite aprende a respirar. estou acordada
vejo com outros olhos as aves e a pupila dos astros
dom que ascende da clareira dos bosques

 

_
Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010



Castelhano

I.

Recuerdo la rosaleda del tiempo, las esmeraldas, sus memorias
el verde es el color de los árboles seculares impenetrables
oigo la noche cantar por los campos dentro de los cedros
la muerte enciende dos candeleros moviendo la pupila de los ojos

de un lado para el otro hay un agitar alto de crateres
la luna abre las sábanas de la luz a los labios de los volcanes de la noche
poemas que entrañanse en otros poemas dentro de la brisa
y se hunden las voces de los jardines de las corolas
luz inagotable mejilla del agua
angeles de la eternidad pedaleando para siempre
cantando en violines aéreos en el perfume de los lilas

me encuentro en posición de la llama que se desliga del cuerpo
soy una paisaje vertical y grande
atraviesada por un instrumento cirurgico

soy un enjambre de sonidos una mariposa ávida
que magneticamente atrae otras palabras al tacto y a la videncia
un renacimiento un recuerdo una vocación tremenda
puntos de agua y fuego alimentan la boca-ánfora de un niño
amor es tu nombre, un abstracto nombre.
en grandes bosques del silencio yo amo este niño
dentro de la aurora infantil de tus dedos
por las ramajes verdes el fresco fulgor de las galerías de sombras
el misterio la atravesa en una piedra encendida
de su boca brota el arbusto de un relámpago una flecha
en todo su lento y cientifico clamor
ho secretos labios de mi amada infancia
que revienta en magnolias encendiadas en flor

y cuando me inclino sobre los diques de los ponientes
el fuego me recoge en sus barcos de licor y miel
caigo brutalmente latiendo en una gruta abierta
perdidas entre las altas torres de las ciudades
y sus negras puertas

los objetos parecen voces en las puntas de los lápiz
fuera los semáforos están llenos de fórmulas
apagamos las manos mutilando los gestos
por la noche bajan rosas de nieve por los bosques

entonces corro locamente para dónde soy visible
mis gritos muestran raras joyas en las chimeneas de las casas
millares de hombres pasan incesantemente
es en las palabras que me deposito en cenizas

una raíz de la noche aprende a respirar. estoy despierta
veo con otros ojos las aves y la pupila de los astros
don que asciende del claro de los bosques

_
Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem os Bosques”, Edição de Autor, Lisboa, 2010
Tradução – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

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