░ 2006

Abrir a porta é
entre os gestos de coragem
o que viola mais de frente o Feng Shui
Muitas coisas são esparzidas pelo vento e acolhidas pela água
tu por exemplo
Eu
que não sou guerreiro e só vejo o que se mostra ao largo do
olho mágico
eu que enxergo o visível e
o invisível deixo para quem tem olho neste
mundo de cegos
eu sarnento que teria de trocar de pele os dias todos
todos os banhos na Lagoa Rodrigo de Freitas no Tejo ou
na tua baba mas
não troca
digo-te
pula pra dentro me abraça esconde a espera e me mostra a faca da
folia e da carne a mal passarmos
o fio de enfrentarmos juntos os diabos vesgos deste apartamento
os fantasmazinhos que nós não inventamos
a espessura do que é alimento se você
presente coda desta casa inflada
pular pra dentro
Abri a porta
o ferrolho sempre deu pro pátio interno
e eu
de lado para a porta a fim de estar mais salvo ao fim do dia das visitas
dos besouros
olhei o apartamento nos teus olhos devolvido e ali a chave
o oriente
era bem perto era a esta mão mas
a jornada não cabia na aliança
o olho súbito a dizer que demoraras
a indicar que as muitas milhas de roteiro no invisível
(eu que vejo só por olhos)
eram cansaço
mas mentira
a estrada foi o que ressalvou nosso Feng Shui
Abri a porta
pula pra dentro
que seja
entre os gestos de coragem
o mais violante e violado aquele que em você me diga
existo

 


▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
in “40”, Editora Oficina Raquel, Rio de Janeiro, 2015

 

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