░ MUDANÇAS DE NOME

Aos amantes das belas letras
Faço chegar os meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas
A minha posição é esta:
O poeta não cumpre a sua palavra
Se não mudar o nome das coisas.
Por que razão o sol
Há-de continuar a chama-se sol?
Peço que se chame Micifuz
O das botas de quarenta léguas!

Os meus sapatos parecem ataúdes?
Pois saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comunique-se, anote-se e publique-se
Que os sapatos mudaram de nome:
Doravante chamam-se ataúdes.
Bem, a noite é longa
Qualquer poeta que se tenha em boa conta
Deve ter o seu próprio dicionário
E antes que me esqueça
Ao próprio deus é preciso mudar o nome
Que cada qual o chame como queira:
Esse é um problema pessoal.

 

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▪ Nicanor Parra
(Chile, n. 1914)
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila

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