░ Qualquer coisa de intermédio

“Eu não sou um nem outro:
Sou qualquer coisa de intermédio”
------------------------- M. de Sá-Carneiro

 

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
(e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro

 


▪ Ana Luísa Amaral
(Lisboa, n. 1956)
in “Minha Senhora de Quê”, Quetzal Editores, Lisboa, 1999

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