░ Anoitece em inferno a minha casa

Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa.

 

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▪ Helga Moreira
(Guarda, n. 1950)
In “Agora que falamos de morrer”, & Etc Editora, Lisboa, 2006

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