░ à volta do poema sem voz

Os lençóis do vento batem nas folhas das árvores. ouço as letras da
primavera balouçarem no campo das mesas.
vivem na força do poema que passa rápido.
e deixo-me inundar pelas águas que nascem de uma falta.
o poema passa como expressão de um círculo com outros círculos dentro;
libertar-se do centro é o seu movimento,
encontrar-se no texto com a poeira das horas.

escrevo cópias dele em toda a parte.
a criança deitada na noite, que chora nos bosques, procura-lhe a voz.
e pela primeira vez o poema fala.

o corpo sente a sua linguagem pela distribuição das águas.

há rosas subtis que o texto vem procurar em nós.

como disse Rilke:
o que faz a sensualidade mais alta é a distribuição da luz.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “De Amor Ardem Os Bosques”, Ed. Autor , Lisboa, 2010

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