░ Como será estar morto durante duzentos anos

Como será estar morto durante duzentos anos?
O que diria Sócrates?
A vida não tem sentido, quem o disse
foi Tolstoi.
E Freud? Outro cismático!
Eu que fiz análise durante vinte anos
tornei-me um humano ainda mais pessimista.
O meu analista aconselhou-me a abrir um paraíso
mas eu tornei-me político!
E aquela mulher que faz exercício todos os dias depois do trabalho
e a seguir leva para casa um punhado de sacolas do Pingo Doce?
A vida é cheia de solidão, infelicidade e caveiras dos outros.
Ultimamente têm-me passado coisas estranhas pela cabeça,
estou a ficar mais gordo e custa-me dobrar os joelhos.
Talvez um dia encontre um amor com dentes de ouro
e cheio de banhas para amortecer os desgostos.
Ora bolas, afinal para que é que servem os espelhos?
Vou passar um fim de semana a ver filmes de Manoel de Oliveira.
E se eu acreditasse em Deus ?
Talvez fosse uma boa solução!
Mas eu estou desactivado do céu.
Sou o que se chama um militante holístico.
Dizem que há um “ olho” que nos está sempre a ver
Por acaso vivi durante onze anos com um oftalmologista
e nunca me receitou óculos. Os que ponho actualmente
são para Ler livros sobre a vida-em-morto.
Tenho muitos medos. Devoro livros em Braille toda a noite.
Ando obcecado pelo tema dos esgotos.
Deve ter sido por isso que gosto de Esopo
que me ensinou um processo fabuloso para exterminar o medo.
Há uma substância química no nosso corpo
que faz com que não sejamos galinhas. E outra,
que nos faz irritar uns com os outros.
Já sei porque me irrita o governo. E os políticos e os do arco do poder.
O tema da morte é mesmo um tema assombroso.
O preço do gás está a subir.
“Todas as tentativas de suicídio são um fiasco.
Vivo abrindo as janelas e fechando o gás”.(*)
Não sei como os mortos conseguem viver.
Mas acho que devem ser pessoas fantásticas.

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
Poema inédito publicado com autorização prévia da autora.
 

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One thought on “░ Como será estar morto durante duzentos anos

  1. Tenho comentado alguns poemas de Maria Azenha, elogiando sempre a grandeza e a beleza das suas metáforas, de um enquadramento poético perfeito. Mantenho a mesma opinião em relação a este poema, acrescentando, no entanto, uma outra peculiaridade original: trata-se de um poema desconcertante, pois esconde dentro de si um humor refinado. Dei comigo a rir-me, ao lê-lo.

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