░ Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas

Um século de apanhar nuvens. Navios-fantasmas chegando e
partindo. O mar mais fundo, mais vasto. O papagaio na gaiola de
bambu falava várias línguas. O capitão no daguerreótipo tinha as
bochechas pintadas de vermelho. Ele trouxe uma rapariga semi-
nua dos trópicos que mantinham presa no sobrado mesmo
depois da morte dele. À noite ela emitia sons que poderiam ser
um cântico. O capitão falou de uma raça de homens sem boca
que subsistiam apenas com o cheiro das flores. O que fez com
que a sua mulher e a sua mãe dissessem uma oração pela salvação
de todas as almas não baptizadas. Uma vez, contudo, descobri-
mos o capitão a tirar a sua barba. Era falsa! Por baixo tinha outra
barba que parecia igualmente absurda.
Era o tempo dos passeios de viúvas atarefadas. As línguas mortas
do amor ainda se usavam, mas também muito silêncio, muita gri-
taria muda em altos berros.

 

_
▪ Charles Simic
(Jugoslávia, n. 1938)
in “Previsão de tempo para utopia e arredores”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
Tradução – José Alberto Oliveira

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