░ na aldeia de George Orwell

as casas acordam manhã cedo
pontuando o início dos trabalhos
ouvem-se ao lado os passos de uma criança
dando as últimas pancadas no sobrado
nas paredes
um coração de oráculos
bate desordenadamente as horas
a cada sinal emitido pela rádio
as marcas de um novo século
com as recentes novidades biológicas

as nuvens não carecem de torneiras abertas
e o céu desaba nos seus últimos farrapos

 

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▪ Maria Azenha
(Coimbra, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2012

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One thought on “░ na aldeia de George Orwell

  1. Os oráculos já desceram dos altares. Diluem-se pela nuvem que transporta a palavra até ao âmago da vertigem.

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